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Fogo que arde sem se ver

3 de Agosto de 2017 | marlene cunha
Fogo que arde sem se ver
Opinião

Talvez haja no nosso território um problema bem mais grave do que a falta de limpeza das matas. Porque floresta temos pouca.

As áreas de matas proliferam. Matas repletas de matos, de combustível desprezível ou talvez desprezado. Áreas que à medida que aumenta o abandono das práticas agrícolas associadas ao êxodo rural, se pintam de verde e castanho em dois ou mais patamares. O patamar mais alto, e tido como o mais poderoso, fica rapidamente à mercê de uns patamares mais baixos e mais densos.

São patamares carregados de munição carburante. Combustível dependendo do acaso ou de uma mão criminosa. Dependente do clima ou da vontade alheia. Este sim, um fogo que arde e que se vê.

Sejamos honestos. Olhemos para dentro de casa, para os nossos descendentes. Poucos são aqueles que projectam para um filho um futuro na agricultura ou mesmo na silvicultura. Talvez visualizem um arquitecto paisagista, mas raramente ou talvez nunca o verdadeiro e genuíno arquitecto da paisagem. Uma grande parte das vezes, mesmo que inconscientemente, desprezam o trabalho de quem, indirectamente ajuda na prevenção dos fogos florestais. Desvalorizam as agruras constantes de quem teima em manter esta nobre missão. A missão de pintar o território com tintas não combustíveis.

Desvalorizam as culturas, sejam estas permanentes ou temporárias. Desvalorizam os animais. Sejam estes comestíveis ou simplesmente domésticos.

São estes homens e mulheres os pioneiros no combate aos fogos. Aqueles que ardem e deixam rasto. Um rasto de insegurança e insatisfação por parte de quem, afinal, não faz rigorosamente nada para que esta realidade seja bem diferente. Aqueles que apontam o dedo em função dos interesses, ou das notícias feitas para “venderem”. Venderem falsas verdades, idealismos impraticáveis, ou talvez interesses ocultos.

Muitos dos apoios atribuídos aos agricultores são na verdade atribuídos a todos nós indirectamente. Estes são para uma grande maioria a âncora que os mantêm em terra arável. O isco para que mantenham os rebanhos, nas pastagens em terrenos agro-florestais. São os investimentos financiados por fundos comunitários que aliciam muitos cidadãos a investir na agricultura e na floresta. Dependendo da boa vontade do político, legislador, que decide se a verba é para distribuir agora, ou noutra abertura de candidatura. Sempre sentado talvez com a gravata desapertada, devido ao esforço. Decidem quanto, quando e para onde. Mais a Sul… porque para o Norte restam as migalhas, falando do Alto Minho em particular.

Fica a questão: e quando estes apoios acabarem? Onde irá parar a sustentabilidade do mundo rural? Nos pequenos carvalhais… nos pequenos pinhais ou nos pequenos eucaliptais? Qual destes produtos florestais é capaz de sustentar uma exploração agro-florestal de pequena dimensão como são as explorações do Alto Minho?

Não abordei nem o ordenamento florestal nem as políticas florestais ou agro-florestais aplicadas durante algumas décadas. Porque sobre esses temas paira um fogo descontrolado. Um fogo que arde sem se ver.

 

Curiosidade: Foi a 18 de Julho do ano 64 que aconteceu o grande incêndio de Roma. A capital do Império Romano foi assolada por um incêndio devastador, que acabou por consumir dois terços da cidade. Foram nove dias de chamas. Durante muitos séculos, o Imperador Nero foi tido como o grande culpado do fogo para incriminar e perseguir os cristãos. A teoria é hoje pouco aceite. O mais provável, dizem os estudiosos, é que tenha sido um incêndio acidental, causado por algum morador usando o fogo para se aquecer ou fazer comida. Talvez não tenha sido Nero aí. Mas quantos “Neros” não houve desde então pelo mundo e no nosso Alto Minho?

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