Vivemos num tempo em que parece existir uma obrigação silenciosa: a de saber tudo sobre tudo. Como se a ignorância, mesmo que momentânea, fosse um pecado moderno.
Tudo derivado ao acesso à informação quase instantânea que temos nos dias de hoje. Há uma pressão constante para termos opinião formada, dados actualizados, argumentos prontos. Mas ninguém nos diz que essa correria para o domínio absoluto pode ser, afinal, a porta de entrada para o engano, ou pior,
para a ignorância mascarada de certeza.
Esquecemo-nos, muitas vezes, da importância da partilha de ideias. Do simples gesto de ouvir antes de falar, de perguntar antes de afirmar. O pensamento crítico nasce precisamente aí: no espaço entre a dúvida e a resposta, na atenção ao que o outro traz e na humildade de aceitar que não sabemos tudo. E ainda bem.
Descobrir aquilo que realmente gostamos, aquilo que nos move, que nos desperta curiosidade, é tão essencial e especial como respirar. Não precisamos de ser os enciclopédicos do mundo para sermos cultos; uma breve e consciente escolha dos nossos interesses chega e sobra para estarmos cultivados tanto a um nível social como cultural.
Cultura não é acumulação mas sim digestão. É saber onde queremos aprofundar e onde preferimos simplesmente ouvir. Às vezes é na ignorância simpática que descobrimos novos olhares para as situações e novas noções dos temas com que muitas vezes convivemos diariamente. Acreditar cegamente, seja no que for, é meio caminho andado para a ignorância. Por isso, confirmar factos não é preciosismo é responsabilidade. Uma afirmação só é verdade se for comprovada, caso contrário, não passa de um barulho. É nesse barulho que muitas vezes caímos quando falamos apenas para não parecer que estamos fora do assunto. Aceitar que não temos a informação necessária é o essencial para nos distanciarmos desse barulho. Nem todas as conversas precisam de ser dominadas por nós. Ser o receptor também é
importante. Fazer perguntas, admitir que não estamos a par de tudo, permite-nos aceder a pontos de vista que não encontraríamos sozinhos. O desconhecido pode ser, surpreendentemente, uma ferramenta de diálogo. E acredito que é uma das melhores. O domínio, ao contrário do que se pensa, nem sempre é o melhor percursor de uma boa conversa. Quando entramos num tema convencidos de que sabemos tudo, deixamos pouco espaço para que o outro exista. Fechamos portas. E é aí que perdemos oportunidades de ser desafiados, de aprender, de refutar com base naquilo em que acreditamos e, quem sabe, até de mudar. A verdade não é única. Nunca foi. Nunca será. É um campo em constante movimento, moldado por provas, interpretações e experiências. E só quem aceita isso consegue realmente conversar, crescer e evoluir.
O mundo está em constante desenvolvimento e tal como ele também a forma como pensamos está em constantes confrontos que de alguma forma tornam as nossas “verdades irrefutáveis” refutáveis.
Por fim, talvez a maior sabedoria seja esta: permitirmo-nos não saber e, mesmo assim, continuarmos atentos. Porque a curiosidade, essa sim, é o motor que nos mantém vivos por dentro. Sejam curiosos, sejam interessados, sejam, ao mesmo tempo, mudança e estabilidade. E, acima de tudo, escolham aquilo que realmente gostam, porque ser sábio não é saber tudo sobre o mundo, mas saber, primeiro, sobre nós próprios.
Sandra Fernandes










