E eis que começamos um novo ano, para o qual, com certeza, milhões de pessoas pediram, aquando das doze badaladas e dentro daquilo que são os seus desejos, muita PAZ para o mundo inteiro. Aquele desejo que, infelizmente, nunca passará de um mero desejo. É triste dizê-lo, mas é um facto incontestável. E porquê? Porque os interesses económicos sempre se sobrepuseram e irão continuar a sobrepor-se à tranquilidade, à equidade, à justiça e ao bem-estar de todos. A loucura desmedida pelo poder, a ganância de se querer cada vez mais e mais, o desbravar e aniquilar o que se encontra pela frente, para se atingir determinado fim é o que impera. É este o mundo em que vivemos atualmente… um mundo dilacerado pelos “deuses” omnipotentes e omniscientes, que praticamente todos os dias vemos e ouvimos no telejornal a dizerem barbaridades atrás de barbaridades, a cometerem ataques horrendos, a matarem milhares de pessoas inocentes, a incentivarem ao ódio, à discriminação, a gritarem bem alto aos ouvidos dos amnésicos que cegamente os seguem: “não leiam, não recordem o passado, não dêem importância aos factos históricos, nem tão pouco aos que pensam de forma clara e crítica e que por aí defendem a empatia, o altruísmo, a igualdade de direitos e oportunidades, a Liberdade, entre outras coisas triviais”. Pois é, caros leitores, o mundo está doente. Temos bactérias a propagarem-se a um ritmo assustador e se um antibiótico não for usado com celeridade, a situação vai tornar-se crítica. E eis que desse lado surge a questão: mas o que podemos nós fazer? Mantenham-se desinfectados, isto é, não se deixem contaminar pela ladainha dos ditos “deuses” e apostem na prevenção, de forma a que as bactérias não se multipliquem. Sejam resistentes, resilientes e recordem que a memória e o conhecimento são o melhor antídoto para sobreviver a esta epidemia de falta de princípios, valores, empatia e respeito pelo próximo.
Deixando um pouco de lado a epidemia mundial, passemos agora para o nosso Portugal. Estará Portugal infectado? Estará o nosso Portugal doente? Será que parte do povo português está amnésico ou até mesmo com algum tipo de demência (entenda-se demência como a perda progressiva de funções mentais, como a memória, raciocínio e julgamento, linguagem, etc)? Não sei qual é a vossa opinião, mas para mim, infelizmente, também o nosso Portugal está a ficar enfermo e temos um crescente número de pessoas com amnésia (perderam a Memória, sobretudo a de Longo Prazo/Declarativa). A partir do momento em que ouvimos determinadas pessoas a pedirem que Salazar volte; que apelam aos valores cristãos (amar o próximo, cultivar uma vida de humildade, compaixão, justiça, honestidade, com vista à construção de uma sociedade mais fraterna), mas na verdade só incentivam à discriminação e ao ódio contra as minorias e os imigrantes, de forma bastante engenhosa; que utilizam a arte do bem falar para iludir os amnésicos; que dizem hoje uma coisa e amanhã estão a dizer outra, conforme o que mais lhe interessa ou para que possam ficar melhor na fotografia; que apoiam a continuidade de touradas, onde um pobre animal serve de espectáculo deprimente a um grupo de meninos de pulover amarelo colocado sobre os ombros e sapatos de vela, acompanhados por meninas com argolas enormes a reluzir nas orelhas (desculpem a generalização); os que acusam o sistema, quando fazem parte do próprio sistema, desde sempre; entre muitas outras coisas nocivas, então temos um Portugal doente.
Por fim, questiono-me: Como é possível termos tanta gente amnésica? Esqueceram-se do tempo de miséria que se viveu no passado, onde predominava o analfabetismo? Têm saudades do tempo, em que reinava a fome em inúmeras casas e onde as mulheres eram tidas como seres inúteis, que apenas serviam para procriar e realizar as tarefas domésticas? Esqueceram-se do facto de não se ter liberdade de expressão e quem se manifestasse contrário ao regime vigente, era alvo de represálias (usando o eufemismo)? Estas são algumas das muitas questões que me preocupam. Espero que, entretanto, a memória volte ao cérebro de alguns e que os demais não deixem de lutar por um mundo de todos e para todos, por um mundo justo, onde o conhecimento do passado e do presente sirva de reflexão para a construção de um futuro salutar.
Sónia Pereira










