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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Destaques

Ouro suado, chão perdido

09/02/20264 Minutos de Leitura
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Se está a ler estas linhas, caro leitor, é porque já exerceu o seu dever, ou melhor, o seu direito fundamental de escolha. Um privilégio blindado por normas jurídicas e princípios democráticos que, embora sólidos no papel, parecem por vezes transformar o voto numa “arma civil” cuja mira, ironicamente, aponta sempre ao peito do cidadão comum.

Refiro-me àquele que trabalha sol a sol, sacrificando o descanso para garantir o pão; aquele que chega ao final do mês numa contabilidade de sobrevivência, onde o que sobra para emergências é apenas a incerteza. Este cidadão flutua sozinho em águas turvas, lutando para não se afogar enquanto aguarda por uma “botija de oxigénio”, o salário, que teima em chegar apenas entre o dia 22 e o dia 8 do mês seguinte.

É este mesmo cidadão que, agora, se vê despojado do pouco que tinha perante a fúria de tempestades como a Kristin. Mas pergunto: serão estas intempéries as únicas culpadas pelo desespero que se instalou?

Muitos, caro leitor, irão dizer que somos todos culpados pela revolta do planeta. Dirão que a falta de bom senso da humanidade esgotou a paciência da Terra. Mas será o cidadão que luta pela dignidade diária o verdadeiro responsável? Ou serão as decisões daqueles que colocamos no poder, muitas vezes movidas pela sede de capital e pela manutenção do status quo, as que realmente nos deixaram desarmados perante a natureza?

A verdade é nua e crua, caro leitor, não estamos preparados. E é no rescaldo da destruição que percebemos a urgência de um Estado Social que funcione não como uma abstração, mas como uma boia de salvação real.

O Estado tem o dever ético de apoiar quem o sustenta. A máquina pública é alimentada pelo esforço de contribuintes que, hoje, vêem os lemes das instituições brilharem como ouro, enquanto o seu próprio chão desaparece. É um “ouro suado” que agora faz falta para devolver a dignidade a quem perdeu tudo.

Não se trata de medidas paliativas de cinco ou dez mil euros; trata-se de reformular a segurança de um povo que se sente entregue à própria sorte.

“Nas tempestades é que se conhecem os bons marinheiros. Mas, para navegar, o povo precisa de um barco, não apenas de promessas de resgate.”

Para que a dignidade não seja um privilégio de quem decide, mas um direito inalienável de quem confia, urge agir em duas frentes fundamentais. Primeiro, garantir que a carga fiscal deixe de asfixiar quem vive no limite. Não falo apenas dos mais desfavorecidos, que, por direito, acedem a apoios sociais, mas da classe média: esse extracto cada vez mais vasto, sufocado entre impostos implacáveis e o peso esmagador de uma banca que parece enriquecer à custa da amargura alheia.

Em segundo lugar, impõe-se um controlo rigoroso e ético da despesa pública. Como podemos aceitar, caro leitor, que os vencimentos de um Presidente da República ou de um Ministro habitem uma galáxia tão distante do ordenado mínimo que define a sobrevivência da maioria dos portugueses? No final do dia, a pergunta que ecoa é apenas uma: será este abismo social, sustentado pelo esforço de todos, minimamente digno?

O direito à dignidade não pode ser um conceito selectivo, caro leitor. É tempo de devolver a segurança a quem perdeu o tecto, mas, acima de tudo, é tempo de garantir que o “marujo” português não tenha de lutar contra a tempestade e contra o seu próprio Estado ao mesmo tempo.

Helena Ramos

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