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21 de Maio de 2024 | José Augusto Pacheco
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Opinião

Ainda no tema da reparação colonial, falo de duas situações que vivi pessoalmente em Moçambique, e mais particularmente em Maputo, a cidade das acácias, de uma beleza sem fim.

Por várias vezes estive em Maputo, tendo chegado a viver um mês num dos bairros da cidade, muito próximo do Hotel Cardoso, o grande símbolo dos tempos coloniais.

Como estava num apartamento da Universidade Pedagógica de Moçambique, tive tempo suficiente para falar com as pessoas do dia a dia da cidade, observando, de uma forma mais particular, os seus rostos e escutando as suas palavras.

Várias vezes parava para conversar, e a palavra que mais ouvia em relação a mim era a de patrão, como se os genes coloniais ainda estivessem ali, dentro da cidade e dentro das pessoas, que somente pediam uma moeda ou tentavam vender qualquer coisa.

Se fazia as refeições fora, o pequeno-almoço era cuidadosamente preparado por uma jovem-mãe, dos seus vinte e poucos anos, que, por sua vez, era filha de um soldado português.

Não era de Maputo, nascera numa das províncias onde a guerra colonial tinha sido mais intensa e vivia no caniço (aglomerados populacionais que se formaram à volta da cidade), deslocando-se diariamente para a cidade de cimento.

Falei demoradamente com essa jovem-mãe, a quem nunca foi reconhecida a nacionalidade portuguesa, porque seu pai também jamais reconheceu a filha que, entre armas de fogo e momentos de amor, nasceu e cresceu numa terra de guerra.

Sabia somente o nome do pai e a terra portuguesa onde ele nascera.

Nada mais sabia. O amor esgotava-se facilmente -se com o fim do destacamento, e os filhos por lá ficavam, sem direito a nada, a não ser a designação infame de pai incógnito.

Seria da mais elementar justiça atribuir a nacionalidade portuguesa a esses filhos e a essas filhas, geradas em tempo de guerra colonial.

Perguntei-lhe se sua mãe tinha requerido a nacionalidade por ser filha de um soldado português, tendo-me respondido que sim, mas que não fora atendido o seu pedido, por falta de comprovativo. Ninguém aceitara dizer a verdade.

Quando se fala de reparação colonial esta situação é uma das injustiças que têm de ser reconhecidas, criando-se, para o efeito, os mecanismos necessários para resolver tamanha desumanidade.

Vivi uma outra situação que me marcou. Num domingo, de roupas alegres e vozes espalhadas pelas ruas, fui convidado a almoçar em casa de um casal moçambicano, na tal zona de caniço.

Da refeição apenas tenho a dizer que foi demorada, farta, emotiva.

O chefe da casa contou-me a sua experiência militar. Fora soldado ou guerrilheiro, tendo combatido os portugueses com a ferocidade de qualquer guerra colonial. Que fizera somente o que tinha de ser feito.

Mas fez questão de me dizer que um dia, numa emboscada, já muito perto de abril de 1974, poderia ter puxado o gatilho várias vezes ou lançado uma granada de mão, quando o alvo estava bem identificado.

Porém, não o fez, e disso falava com orgulho, não guardando qualquer rancor a Portugal.

 

 

 

 

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