Comemoramos mais uma vez a Revolução de 25 de Abril de 1974. Completam-se cinquenta e dois anos desse marco histórico que continua a orientar o presente e a questionar o futuro. A sua evocação cruza-se com a memória da fundação do concelho, a 13 do mesmo mês, mas em 1515, recordando que as comunidades se constroem numa continuidade feita de território, identidade e participação.
Num contexto global cada vez mais instável, multiplicam-se sinais preocupantes (conflitos internacionais, desrespeito pelo direito internacional, crises migratórias, enfraquecimento da democracia), em grande parte associados ao crescimento de regimes autocráticos.
Este cenário não nos é distante. Sentimo-lo também no quotidiano, desde logo no impacto da instabilidade económica. Ao mesmo tempo, diversos analistas descrevem o momento atual como o da hiperpolítica: uma intensa discussão pública que nem sempre se traduz em soluções concretas. A desinformação, amplificada pelas tecnologias digitais, fragiliza a verdade e alimenta extremismos, incluindo o ressurgimento de correntes próximas do semifascismo. O descontentamento social transforma-se, com frequência, em protesto eleitoral, colocando em causa os próprios fundamentos democráticos.
Entre os jovens, observa-se um paradoxo inquietante: cresce o interesse pela política, mas também a desconfiança nas instituições e a abertura a soluções autoritárias. Este fenómeno exige respostas urgentes, centradas na educação, na cultura e na participação cívica, únicas vias capazes de reconectar o interesse político com a vivência democrática.
A educação permanece, aliás, um pilar essencial da democracia, embora não esteja isenta de contradições. Se hoje há mais escolarização, persistem desigualdades e uma participação ainda insuficiente na vida das comunidades, comprometendo valores fundamentais como a igualdade de oportunidades e a cidadania ativa.
Também a esfera pública, esse chão comum que partilhamos, enfrenta novos desafios, correndo o risco de se subordinar à lógica da esfera privada. No entanto, Abril mantém- se como símbolo maior de liberdade, direitos sociais e participação, conquanto se respeite a soberania una e indivisível, exercida pelo povo, nos termos consagrados na Constituição da República Portuguesa.
Ao reforçar uma democracia de proximidade, centrada nas pessoas, o poder autárquico assume um papel determinante, afirmando-se como um dos principais pilares da democracia.
Honrar Abril é, por isso, agir no presente, já que a democracia não é apenas herança, mas também uma escolha diária, renovada em cada decisão orientada para o bem comum.
José Augusto Pacheco











