Começo por referir o evento Comunidade de Leitores – Casa do Conhecimento, realizado, no dia 21 de maio, na Casa da Escritura Aquilino Ribeiro, em Romarigães, em que esteve em análise “Arcas Encoiradas”, um livro que pode ser considerado o vestíbulo narrativo do ímpar e prodigioso romance “A Casa Grande de Romarigães.” Mesmo que o livro “Arcas Encoiradas” (publicado primeiramente em fascículos de jornais) não tenha uma grande unidade ao longo dos 18 capítulos, há algo que o caracteriza, e que nos leva a considerá-lo uma obra exemplar no modo como Aquilino Ribeiro presta uma homenagem ao escritor romano Virgílio, não tanto em “Eneida”, mas essencialmente em “Bucólicas” e “Geórgicas”.
“Arcas Encoiradas” é, de fato, um livro de etnografia, sobressaindo, de forma literária inigualável, opiniões, fantasias e ensaios, em que são argumentadas, com um notável conhecimento histórico, geográfico e etnológico, teses que são modos de olhar profundamente para o quotidiano dos territórios e das suas gentes, por exemplo, acerca da origem das antas ou dolmens, sobre as caracterização do beirão e do minhoto ou relativamente ao povoamento disperso, como é o do Minho, e mais ainda o do Alto Minho.
Não há dúvida de que se trata também de um livro de viagens, mas com arte, cultura, histórias e descrições que são hoje testemunhos dos anos de 1950: Viseu, Lamego, Coimbra, Lisboa, Porto, Ponte de Lima e Braga são algumas dessas terras que entram na escrita de Aquilino Ribeiro.
E assim chegamos aos dois últimos capítulos, em que o escritor beirão, mas apaixonado pelo Minho, fala de modo mais particular sobre Paredes de Coura, referindo-se às videiras, ao milho, às aves, às pessoas (e ao minhoto, ma generalidade sobre quem diz: “será sempre um mau consumidor dos vinhos de outras áreas. O minhoto é bom bebedor, mas do seu verde” ou do seu “vom binho berde”) e ao território, que tão bem conheceu, e no qual armou, precisamente na Casa Grande de Romarigães, a banca como construtor de castelos nas nuvens, como o próprio escreve, mas interrogativamente:
“Passamos o cruzamento de S. Roque, e o ronrom do motor funde-se com o sonoro dobre dos sinos em baixo, na Igreja de Romarigães, a chamar para a missa, que dia de festa no povo. Apinham-se os trajos de ver a Deus à entrada do adro. No antigo paredal da chamada Casa Grande, prosseguem as obras. Quando armará ali banca o construtor de castelos nas nuvens?”
José Augusto Pacheco






