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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quotidianos

13/10/20263 Minutos de Leitura
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Era meio-dia do dia 10 de março de 1834 quando, no lugar de Gondomil, na freguesia de S. Miguel de Fontoura, um homem caiu na berma da Estrada Real, coberto de facadas. Chamava-se «Francisco de Azevedo, era casado e natural do lugar de Quingustes, freguesia de S. Mamede de Ferreira, concelho de Coura.» Servia como oficial de diligências, colocado em Valença, e cumpria naquele dia uma das tarefas mais arriscadas do ofício: conduzir presos, sem segurança alguma.

A estrada que percorria ligava a Praça de Valença à vila de Ponte de Lima. Seguia, em parte, o traçado da via romana que unia Braga à Galiza, e coincidia com o que é hoje o Caminho Português de Santiago, por onde ainda passam, cada vez mais, peregrinos de mochila às costas e absortos numa espiritualidade que secundariza o cansaço.

Em certos troços, porém, deixava o vale e procurava a fralda da serra, pela chamada estrada das Pedras Finas, um percurso de encosta, afastado dos povoados e, por isso mesmo, mais solitário para quem viajava com companhia tão perigosa.

O destino dos presos era «a cadeia de Braga ou o Exército.» A segunda hipótese é a mais provável, na medida em que Portugal vivia os últimos meses da guerra civil entre liberais e miguelistas, que só terminaria em maio, e os presos serviam muitas vezes para engrossar as fileiras de combate. Para quem os levava, isso significava escoltar homens sem nada a perder.

Ao passarem pelo lugar de Gondomil, já em terra de Fontoura, os presos revoltaram-se e desferiram no oficial «violentas facadas.»   Francisco morreu repentinamente, «sem que houvesse tempo de receber sacramento algum», como regista o assento. Morreu também abintestado – ab intestato, na fórmula latina dos livros paroquiais –, isto é, sem ter feito testamento, nada dispondo da alma nem dos bens.

No dia seguinte, 11 de março, a justiça fez-lhe exame e corpo de delito. Só depois o abade Francisco José da Cunha o mandou inumar dentro da igreja de S. Miguel de Fontoura, na sepultura com o número 76, como então era costume, antes de os cemitérios públicos se generalizarem.

Não foi trasladado para Ferreira, a freguesia onde nascera e onde tinha casa e família. Não era prática da família reclamar o corpo, apesar da curta distância. Ficou em Fontoura, bem perto da sua terra natal.

E a notícia é mesmo esta: nos momentos finais da guerra civil e ao serviço da justiça, um courense foi barbaramente esfaqueado, e nada mais se sabe, mais ainda quando desse período os livros paroquiais de Ferreira inexistem.

O breve e seco assento de óbito é tudo o que dele resta.

José Augusto Pa

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