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Acompanhando o Atlético (II)

1 de Dezembro de 2015 | José Manuel Alves
Acompanhando o Atlético (II)
Opinião

Acabado o jogo, após a humilhante derrota de 7-0, ninguém ficou demasiadamente triste, porque perder acontecia de vez em quando e, além disso, tristezas não pagam dívidas Portanto, havia que tirar proveito da ocasião e os adeptos do Atlético dispersaram-se pelas tabernas e cafés da localidade, a fim de atacar os merendeiros que tinham levado e beber mais umas malgas da boa pinga da Ribeira Lima. Ainda me recordo que, na taberna onde estivemos, havia uma planta de funcho (espargo) que trepara para o tecto e dava a volta às quatro paredes do estabelecimento. No meu grupo familiar estava um sujeito de Formariz, amigo do meu pai, que comeu connosco e bebeu bastante. Já meio entornado, começou a meter-se com uma rapariga que trabalhava lá e o patrão não gostou nada do seu comportamento e a coisa ia dando para o torto. É que ela era sua filha e o sujeito desconhecia isso. Sanada a situação, beberam-se mais umas tigelas e quando, a custo, se reuniu o grande grupo, que estava bastante espalhado, era noite fechada. E lá viemos nós virados a Coura, mas como festa é festa, ainda entrámos na vila de Ponte, durante algum tempo, a fim de fazer mais uma “prova” de vinhos. No regresso, à saída da vila, quando nos preparávamos para entrar na ponte medieval, fomos controlados pela Polícia de Viação e Trânsito, que tinha aí o seu posto. Quando dois homenzarrões dessa polícia, com farda bege, entraram na nossa camioneta, fez-se um silêncio sepulcral. Depois de passarem revista, estava tudo “nos conformes” e seguimos viagem. No entanto, se naquela altura já houvesse controlo de alcoolemia, de certeza que os carros não teriam seguido viagem. Quando seguíamos, pachorrentamente, no alto das Pedras Finas, fomos confrontados com uma avaria numa das camionetas que, felizmente, foi de rápida resolução. Chegámos a casa, eram onze horas da noite e eu, cheio de sono, fui direitinho para a cama, sem cear, depois daquela grande aventura!

Passados um ou dois anos, recordo-me que fomos assistir a outro jogo, desta feita, a Melgaço. Eu, que já conhecia algumas terras a sul de Coura: Ponte, Viana, Barcelos, Braga, Porto, nunca tinha ido para norte. Estávamos no Carnaval, era Domingo Gordo, desde o início da manhã que chovera torrencialmente, mas, à hora marcada, eu e o meu pai dirigimo-nos ao Livramento, em Formariz, de onde partiam as camionetas com o pessoal com destino a Melgaço. A chuva era tanta que foi decidido não partir, depois de um telefonema que fizeram para os dirigentes do clube daquela vila raiana. E regressámos a casa, que ficava relativamente perto. A minha mãe, que me tinha ralhado por eu ir faltar à missa naquele dia, alegrou-se ao ver-me chegar, pois ainda ia a tempo de cumprir o preceito dominical. Quando saímos da missa, que ainda era em Latim e, por isso, muito longa, o tempo tinha melhorado consideravelmente e esperavanos um enviado da organização que, de bicicleta, veio informar que já havia condições para o jogo se realizar. Comemos alguma coisa, à pressa, e lá vamos nós, de novo, até Formariz e dali até Melgaço. Fomos pela estrada do Extremo, por onde nunca tinha passado, e já o sol tinha despontado por entre as nuvens, dando alegria e vida à imponente paisagem que íamos vislumbrando. Lá no fundo da montanha, tomámos a estrada que vem dos Arcos, virados a Monção. Pelo caminho, apreciei os arbustos que, ao longo da estrada, embelezavam o ambiente com figuras de aves e outros animais, saídas das mãos dos cantoneiros. Apreciei os pessegueiros e as ameixoeiras em flor que sulcavam toda a paisagem. E, já perto de Mon- ção, deparei com um grande palácio, a Brejoeira, que era parecido com os das gravuras dos livros de histórias que uma tia minha me enviava do Porto e que eu, na minha fértil fantasia de criança, imaginava habitado por príncipes e princesas, em reinos encantados e animais extraordinários! Só passados cerca de sessenta anos, no passado mês de Maio, tive a oportunidade de visitar este palácio pela primeira vez. Agora, já não houve essa fantasia de criança, apenas uma visita guiada às suas instalações, integrando um grupo de ex-colegas de profissão.

Quando chegámos a Melgaço, o dia tinha clareado e estava um belo dia de sol e fomos directos para o campo de jogos, que não tinha acesso por estrada, fazendo o trajecto por caminhos e carreiros, atravessando alguns ribeiros, e como era o primeiro dia de pesca, segundo ouvi dizer, havia muitos pescadores que davam banho à minhoca… Do jogo não posso falar muito, já pouco me lembro. No entanto, uma vez mais, a fatídica chapa sete voltou a funcionar! Outra cabazada, outros 7-0. Só que, desta vez, não sentimos o escárnio dos adeptos adversários. Apenas me recordo que, na equipa de Melgaço, havia um jogador a quem os adeptos locais chamavam “Cigano”, durante o jogo e que, à sua conta, marcou três golos. Convém recordar que esta equipa, a de Lanheses e outras com quem jogávamos, eram equipas federadas, daí surgirem alguns resultados desnivelados.

Como era usual, os acompanhantes do Atlético dispersaram-se pelos estabelecimentos da vila, após o jogo, e só de lá saímos ao anoitecer. No café onde estive com o meu grupo, reparei que numa gaiola pequena estavam cinco pardais e fiquei espantado. Como era possível que uma ave tão banal e tão nefasta, que os lavradores matavam porque cortavam as ervilhas e o milho ao nascer, por causa do grão, fosse ali, naquela terra, um animal de estimação? Ao ver-me tão admirado a olhar para a gaiola, o dono do café abeirou-se de mim e perguntou-me se na minha terra não havia daqueles passarinhos que eram, para mim, uns grandes passarões!…

Também me recordo que, no regresso, parámos em Monção e, à saída da camioneta, toda a gente começou a espirrar com intensidade e ninguém sabia a origem daquela situação, mas eu descobri, ao reparar que um grupo de rapazes da minha idade estava a espalhar o pó de umas carteirinhas, à medida que os passageiros saíam do carro. Nem mais, nem menos, eram pozinhos de Carnaval que faziam espirrar. Quando os putos se aperceberam que foram descobertos, deram às de “Vila Diogo”. No final, as pessoas até acharam graça. Também me recordo, que entrámos num café onde estava um grupo de rapazes galegos, que bebiam genebra de uma botija de grés e, já alegres, cantavam a “Rianxeira,” uma cantiga da música tradicional galega.

Uns anos mais tarde, no início de 1961, fui assistir a um duplo espectáculo no Campo do Côto, integrando um grupo de rapazes que andava por Formariz a dar os primeiros passos na “arte” de namorar. Nesse domingo, jogava o Atlético com o S. Martinho da Gandra, de Ponte de Lima. Mais uma vez, o amor à terra e a carolice da rapaziada desse tempo foram postos à prova. O duplo espectáculo que referi constava de futebol e folclore. Primeiro exibiram-se os grupos folclóricos de S. Martinho da Gandra e das Lavradeiras de Formariz. Acabada a actuação, coisa rara, alguns rapazes dos dois grupos, despiram a indumentária do folclore, em pleno palco, e ficaram com o equipamento do futebol da sua equipa e foram jogar! Ao intervalo fizeram o inverso e voltaram à dança, já cansados com quarenta e cinco minutos de futebol nas pernas Digam-me lá, não era admirável a rapaziada desse tempo?

Já com esta crónica pronta a publicar, tive a agradável surpresa de receber umas fotos das equipas do Atlético e do Lanheses que o senhor Duarte Rodrigues, jogador que integrou o Formariz desse tempo, me entregou, ao qual agradeço o cuidado e a amabilidade e que só não publicamos por exiguidade de espaço.

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