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DIREITO À TRISTEZA

22 de Janeiro de 2019 | Marlene Cunha
DIREITO À TRISTEZA
Opinião

 

Em vários momentos da nossa vida sentimos tristeza. Uma vezes mais profunda outras mais suaves. A vida é mesmo assim. Proporciona-nos inúmeras coisas, umas boas e outras menos boas. O certo, caro leitor, é transmitir o que é que essas inúmeras coisas nos fazem sentir. O disfarce está bem próximo da hipocrisia.

Na infância, por exemplo, acabamos por concluir que o nosso brinquedo favorito não dura para sempre. Ficamos tristes com este final de história. A verdade é que nos tempos que correm, é tanta a oferta que já não há tempo para que esse brinquedo favorito apareça. Hoje as crianças acabam por sentir desconforto quando não conseguem convencer os pais a comprar aquele brinquedo que apareceu naquele anúncio televisivo. No entanto, qualquer uma dessas ocorrências provocam tristeza. Um sentimento negativo que lhes apaga o sorriso. Mas essas tristezas acabam rapidamente com a estratégia e o mérito dos pais atentos. A tristeza de uma criança é facilmente convertida em felicidade. E ainda bem que assim é. Sem dúvida que as crianças merecem o melhor deste mundo.

Na juventude, é o coração que acaba por ser o que além de alegria cria os maiores e mais intensos momentos de tristeza. No entanto, todos nós sabemos que depois de uma briga saudável entre namorados aparece o momento da reconciliação, o momento de “fazer as pazes”. Essas reconciliações são intensas e repletas de felicidade. Os jovens acabam por transformar rapidamente a tristeza em felicidade, estão em constante adaptação. E ainda bem que assim é porque essa fase é repleta de mudanças. E por vezes grandes mudanças.

Em adulto, a história é um pouco diferente. Apesar da criança e do adolescente que ainda existem em nós, um dos muitos motivos que nos provocam tristeza, com maior ou menor intensidade, é a perda. Sentimos tristeza por perder alguma coisa ou alguém que nos faz, fez ou faria feliz. O sentimento de perda, mesmo que essa não aconteça, provoca-nos tristeza. E já passou o tempo dos mimos dos pais ou das reconciliações sem mágoas. Em adulto as coisas já não são tão simples. O certo é assumir essa tristeza e saber convertê-la em positividade. Quem não se sente não é filho de boa gente! Não devemos disfarçar essa tristeza com alegria. Não sei explicar o porquê desta dificuldade em assumir a tristeza que sentimos em determinados momentos da nossa vida. Sentir tristeza é natural, é humano.

E porque escrevo eu sobre este assunto? Talvez, porque estou triste. Um sentimento que passa por mim inúmeras vezes tal como acontece com a felicidade. E tal como acontece com você, caro leitor. E quando me questionam sobre o porquê de eu estar com um ar abatido ou tristeza, eu respondo simplesmente “estou triste, amanhã talvez esteja melhor, mas hoje estou triste”.

Pois é, caro leitor, escrevo sobre o direito à tristeza. Porque este é um sentimento natural provocado ou por alguma adversidade, ou por alguma carência ou por um outro motivo qualquer. Mas também porque este tema está presente na Culturgest este mês em Lisboa. Enfrentar a tristeza e usá-la como ferramenta para melhorar o mundo, entendendo-a como algo positivo e necessário, é a premissa desse evento.

Mas caro leitor, a verdade é que devemos usar esse direito e não disfarçar esse sentimento. Mostrar a nossa tristeza não é nem nunca será um sinal de fraqueza. É uma demonstração de humildade e de sinceridade. E é com humildade e sinceridade que também advogo o direito à tristeza. E… desejo-lhe toda a felicidade do mundo.

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