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QUOTIDIANO

2 de Outubro de 2018 | Marlene Cunha
QUOTIDIANO
Opinião

Depois do festival recomenda-se sempre uma visita à praia fluvial do taboão, mesmo que tivesse ignorado o festival, que se torna já quase impossível, ou simplesmente não ter colocado lá os pés, fora ou dentro do recinto.

Não restam dúvidas de que o festival, número três do país, assim tem sido classificado, se for tido em conta o número de participantes, é uma imagem de marca de Paredes de Coura, enaltecendo um local paradisíaco – de amor, como lhe chama o Notícias de Coura, na última edição –, feito de verdes diferentes, de águas calmas e de árvores que se estendem por sombras infindáveis.

Dessa visita ainda se pode sentir o ruído silencioso dos sons gritados pelas gargantas de artistas convertidos em pequenos deuses, as palavras ditas na agitação de tantos sonhos, e recordar as imagens, mais do que mil, certamente, que ficaram registadas nos telemóveis.

Mas a natureza lá está. Sozinha. Quase abandonada.

A relva recupera, na lentidão dos dias, os seus espaços calcados por tantos e variados pés, amachucada pelos contentores que dão vida a espaços que se tornam numa publicidade irritante, e pelas barracas modernas, onde se bebe e come, por preços padronizados e adaptados a uma clientela que não se cansa de exigir qualidade.

A outra p0nte sobre o rio já não está lá. Já cansada de tanto peso, retirou-se e regressará para o ano, certamente, com a mesma vivacidade e ávida de tanta gente.

A água corre sobre lodo castanho, as trutas esconderam-se de tanto barulho que tiveram de suportar e até os escalos e as bogas meteram umas férias e subiram o rio, à procura de dias mais calmos.

Os amieiros lá estão, alinhados pelo leito do rio, satisfeitos com a solidão que marca o seu longo tempo de vida, sabendo que vão conhecer ainda muita mais gente, não se importando com os ramos que perdem no meio de brincadeiras, sempre passageiras.

O taboão como espaço idílico recupera. As pessoas, que por lá se passeiam, olham demoradamente para o leito frio que corre calmo, para depois se lançar por entre as pedras já habituadas, e nada estranham. Tiram fotos. Registam momentos. Eternizam sorrisos. Sentem-se únicos.

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