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QUOTIDIANO

6 de Novembro de 2018 | Marlene Cunha
QUOTIDIANO
Opinião

A Casa da Veiga é um alfobre de estórias, cheias de ruralidade.

Em conversa com minha irmã Rosa, numa viagem entre Coura e Braga, o passado fez questão de estar presente, trazendo memórias dessa casa que interpreta muito bem o que Coura foi em tempos idos, se bem que falte ao museu a seiva de vida desses momentos, que talvez um dia estas crónicas possam ser memórias de futuro.

Muita gente transitou pela Casa da Veiga. Para além dos jornaleiros sazonais, pagos na côdea do tempo que era possível, havia aquelas pessoas que por ali passavam e ficavam temporadas sucessivas, sobretudo entre maio e outubro, aproveitando quer os afazeres agrícolas, quer os tempos festivos dos santos.

A Muda e a Beata. Duas mulheres inconfundíveis.

Cada uma com sua vida de errância e permanência, mas ambas caracterizadas pela sachola ao ombro, pelo chapéu de palha e pelo convívio que proporcionavam em tempos tão humanamente sensíveis.

A Muda era uma sachadeira ímpar. Minuciosa no modo como dialogava com a terra, tratando com redobrado cuidado o caule do milho ainda frágil, que crescia amparado para depois ser espiga.

Em tempos de serão, era a verdadeira artista das agulhas, fazendo meia como ninguém. Ninguém a superava e fazia questão de ensinar todas as mulheres, incluindo alguns homens. Reinava no seu mundo silencioso da habilidade, mesmo que os seus gestos não fossem totalmente compreendidos.

A Beata, assim chamada porque gostava de andarilhar pelos lados da igreja, não faltando às missas diárias e às domingueiras, tanto na matriz como no Espírito Santo, era exímia no arado, desafiando os homens que com ela pudessem competir.

Não se amedrontava com os juntas de gado, na sua bruta pujança, na abertura de leivas cheias de vida e carinhosamente tratadas para receber a germinação do milho, base da economia rural de Coura.

Era exímia também no modo como mondava o milho, sabendo que caule devia ser arrancado, numa verdadeira punição, e que caule devia ser mantido preso à terra, com hipóteses de medrar e de garantir a melhor broa que poderia ser cozida no forno de lenha, devidamente selado com a bosta recolhida na corte das vacas, que ficavam na parte inferior da casa, aquecendo-a em noites longas e frias.

A Muda e a Beata falavam muito entre si. Ficavam no mesmo palheiro, de estórias escondidas, e entre si confidenciavam, por gestos trocados na cor negra da noite, iluminada pela luz das estrelas de céu cintilante, momentos que partilhavam, dizendo sempre bem da bondade do Tio Albino e da Tia Carolina, que as recebiam de braços abertos, como o faziam aos seus tantos filhos e filhas.

Passada a temporada agrícola, a Muda e a Beata desapareciam e delas nada se sabia.

O silêncio mantinha-se por meses e com a primavera a cheirar a verão, lá pareciam elas novamente, de sachola ao ombro e de chapéu tapando os cabelos de branco pintados.

E pela Casa da Veiga ficavam meses após meses e anos após anos.

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