Última Hora

QUOTIDIANO

4 de Fevereiro de 2019 | Marlene Cunha
QUOTIDIANO
Opinião

Era um homem das feiras, fosse a de Padornelo, onde deu os primeiros passos, na companhia de seu pai e irmãos, fosse a de Paredes, da qual guarda memórias inesquecíveis.

Sempre aos sábados, porque ainda se faz esta distinção (há o sábado de Paredes e o de Padornelo), o Zé da Tasca virava taberneiro, assumindo essa nobre profissão de servir o mais verdadeiro vinho da região minhota, de preferência o tinto, daquele que deixa marcas na tigela branca, proveniente das ribeiras dos Arcos e Ponte da Barca, em pipas que eram tratadas, quase sagradamente, pelo tempo das vindimas.

Gostava dessa profissão e nos dias restantes da semana comprava o vinho ao melhor preço, fazia o seu transporte – primeiro, em carro de bois, depois, em camioneta de caixa aberta, fretada ao seu amigo, que agora enriquecia com o negócio –, para além do preparo dos paus, sem presença de bicho, e do toldo, amarelado pelos acumulados anos ao longo do tempo.

O dia da feira nascia com o sol – no inverno umas horas antes, já que pelas nove horas o recinto era um mar de gente e a sede não tinha hora marcada – e terminava já noite adentro.

O chegar a barriga ao balcão improvisado, por uma longa e larga tábua, era um hábito que os homens tinham por adquirido, havendo sempre motivos para isso. “Deitar uma tigela” ou “Vai uma tigelinha?” eram frases que se ouviam a cada instante, sendo mais frequentes pelas horas tardias do dia.

E aí a tenda do Zé da Tasca era um verdadeiro confessionário.

Ouvia, por obrigação, narrativas tão diversas, que nem sempre ficava de bem consigo. Aborrecia-o a espontaneidade de certos relatos, não os dos moços gabarolas das suas conquistas, mas os dos mais velhos, perdidos por entre a solidão dos dias, fazendo do reencontro de amigos um momento de confraternização, mesmo que os caminh0s se tornassem perigosamente cambaleantes.

Um dia chateou-se. Encheu-se dessa vida de vinhos servidos aos outros, pois o sustento da família estava há muito garantido. Durante meses não montou a tasca e o lugar era um espaço vazio, junto à praça de táxis, ladeada, no lado poente, pelo muro do jardim.

Um jovem encontrou-o e tentou animá-lo a voltar ao negócio da feira, para comprar e vender o vinho como só ele sabia, acompanhado de petiscos que sua mulher preparava com elevado esmero.

Mas não aceitou. Disse-lhe estar aborrecido com o teor das conversas dos homens, não se sentindo bem com a vinícola ideia do confessionário, porque nunca pensara ir para padre e que agora não gostaria de voltar a narrativas tão tristes, que só o vinho poderia colocar em bocas tão frágeis, apesar de outras tão estrondosamente arrogantes.

É verdade, não aceitou e disse-lhe, “Porque não pegas tu no negócio?”

E o jovem de vinte e poucos anos pegou mesmo nesse negócio, iniciando uma aventura digna de uma futura crónica.

Comments are closed.