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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Destaques

25 de abril, o anúncio na rádio que podia ter sido ignorado

27/04/20265 Minutos de Leitura
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Aquilo que vou abordar trata-se de um olhar diferente do revolucionário 25 de abril. A Revolução dos Cravos começou com um silêncio suficiente para que um sinal fosse ouvido. Um detalhe quase despercebido nesta revolução, uma das operações mais importantes da história portuguesa, é o facto de que esta ter começado… com música na rádio.

Achei curioso que a anunciação não se disseminou com um discurso inflamado, nem mesmo uma declaração oficial. Foram canções que o fizeram.

Primeiro com o “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho. Uma música aparentemente inofensiva, até mesmo romântica, escolhida para não levantar suspeitas. Dadas as circunstâncias, funcionava como código. Um sinal discreto, quase invisível.

Depois, já de madrugada, “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, aí sim, mais carregada de significado. Foi o sinal definitivo para avançar.

Agora se pensarmos bem nisto, o início de uma revolução dependia de algo banal como alguém estar a ouvir rádio e prestar atenção. Podia ter falhado, podia ter sido ignorado, podia, até mesmo, ter passado despercebido entre o ruído normal da programação radiofónica.

Mas a realidade é que não passou, alguém escutou, alguém percebeu e isso bastou. E daqui surge a curiosidade, de que muitas vezes os momentos mais decisivos não chegam com estrondo e podem muito bem ser misturados no quotidiano. Disfarçam-se de normalidade. A verdade é que hoje vivemos no extremo oposto.

A maior parte das pessoas, naquela noite, ouviram a música como em qualquer outro dia. Actualmente caso assim acontecesse não posso garantir que fôssemos dar por este sinal.

Nunca tivemos acesso a tanta informação, imagens e tantas vozes, como agora. As guerras já não são apenas acontecimentos distantes, entram-nos pelos bolsos, ecrãs e pelo gesto já quase automático de deslizar o dedo. Os conflitos já surgem no nosso campo de visão em tempo real, vemos cidades destruídas, pessoas em fuga, o desespero à flor da pele. E, no entanto, no minuto a seguir, um vídeo leve, um “meme” algo que nos distrai e nos traz algum alívio. Dissipando o nosso foco, como que com um simples estalar de dedos.

Tudo ocupa o mesmo espaço e tempo. E é aí que encontramos a mudança dos tempos e por consequência da atenção.

Há algo nesta mudança profundamente inquietante, que é o facto de a “dor do mundo”, competir no mesmo palco e com o mesmo alcance, que o entretenimento descartável. Não se trata de indiferença por parte do espectador, mas do excesso que acaba por nos anestesiar. Vemos tanto que deixamos de sentir.

Durante o 25 de Abril, o perigo era o silêncio imposto, o receio de num campo minado de bombas, pisar uma delas e ser dizimado. Naquela altura, uma mensagem precisava de ser escondida para sobreviver. Hoje, perde-se por estar exposta demais, não acham este antagonismo curioso?

E no meio disto as guerras continuam. Não somente no terreno, mas também nas próprias narrativas. Tudo se desenrola na exposição. Cada lado com a sua versão, cada imagem com a sua interpretação e até mesmo os factos facilmente são colocados em causa, tudo desliza facilmente entre a certeza e a incerteza. A verdade que no passado era controlada, agora passou a ser fragmentada.

É assim que descobrimos o “elefante no meio da sala”, a pergunta que não tem resposta clara: “será que estamos mais livres ou apenas mais perdidos?”

A liberdade conquistada em 1974 deu-nos voz! Mas uma voz, por si só, não garante clareza.

Num mundo saturado de opiniões, a lucidez tornou-se numa espécie de resistência silenciosa. Toda a gente é quase forçada a ter uma opinião acerca, pelo menos, dos temas mais badalados. Porque, agora, reconhecer o que importa exige esforço, recusar a indiferença fácil e não tratar tudo como equivalente.

Talvez seja essa a grande diferença entre aquele tempo e o actual: não é a ausência de liberdade, é a dificuldade em usá-la com consciência.

A Revolução dos Cravos provou que bastava um sinal certo, no momento certo, para mudar um país. Hoje, estamos rodeados de sinais, mas raramente sabemos quais seguir. E enquanto hesitamos, o mundo não pára. As guerras não esperam pela nossa atenção. As decisões não abrandam para que possamos reflectir. Tudo acontece, com ou sem nós.

Talvez, no final das contas, a grande questão não ecoe na liberdade e se realmente somos livres mas sim, se ainda somos capazes de escutar.

Sandra Fernandes

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