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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quotidianos

29/09/20263 Minutos de Leitura
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A 6 de junho de 1752, na igreja de Santo André de Vitorino de Piães, o padre Luís Caetano Mendes batizou uma jovem. Foi registada sem apelido nem pais, apenas dizendo: «Quitéria, preta, que vem do Brasil».

Ninguém sabia a idade dela ao certo, mas foi o padrinho quem a calculou, «de dezasseis anos, pouco mais ou menos».

O resto do assento de batismo conta o porquê da viagem. Vinha «mandada pelo padre António Pedro Pitta a entregar a seu irmão António Pinto Fernandes, da freguesia de Santiago de Infesta, concelho de Coura». 

Sem se saber a razão, foi batizada antes de chegar ao seu destino, tendo sido seu padrinho João Esteves da Silva, natural de Infesta e morador em Lisboa. Com ele vinha Caetano João, de São Paio de Agualonga, homem instruído que também assinou o assento.

A palavra escrava não aparece, nem era precisa. Quem foi«mandada» e «entregue» não escolheu o caminho que fez, pelo que escrava era, de facto. 

Depois, perde-se-lhe o rasto. Os livros paroquiais de Infesta desse período não chegaram até nós, e mais nada se sabe acerca dessa bela jovem Quitéria.

A memória do povo guardou outra coisa. 

Em Infesta, no lugar do Outeiro, conta-se a lenda do cruzeiro do pretinho: um fidalgo da Casa do Paço trouxe de África um menino negro para seu escudeiro, segundo expressa Narciso Alves da Cunha, na sua célebre monografia.  

Com a morte da última senhora da casa, o rapaz ficou sozinho e ia de noite rezar ao cruzeiro pertencente à casa. Um dia encontraram-no morto nos degraus, com o corpo manchado de sangue sem ferida nenhuma, e desde então ficou com fama de santo.

Seria tentador fazer das duas uma só história, mas nada as liga. A lenda fala de um pretinho sem nome, trazido de África por afeição e com fama de santidade, após a sua morte. O documento é sobre uma jovem com nome, data e cor a pele, trazida do Brasil para ser entregue, como se uma mera coisa fosse. 

Ambos revelam, porém, que no concelho de Coura houve escravatura: primeiro na letra seca de um pároco, que não esconde a sua desumanidade, mais acentuada pelo padre Pitta que a oferece a seu irmão, residente em Infesta, e depois no granito de um cruzeiro evocativo de memórias coletivas. 

Quitéria teve direito a treze linhas num registo paroquialde batismos.

É pouco, mas é mais do que a maioria teve, e merecem ser lidas (ver o blogue acima citado). 

José Augusto Pacheco

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