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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Destaques

Quando uma palavra distorce a verdade

27/10/20264 Minutos de Leitura
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Hoje decidi que o meu foco assentaria numa das maiores gafes do panorama mediático: o sensacionalismo, a pressa em ser o primeiro e a falta de rigor na verificação dos factos.

Recentemente fui jantar com um grupo de amigos e, durante a conversa, apesar de evitarmos o uso do telemóvel, por vezes recorremos ao seu auxílio para verificação de dados ou simplesmente para mostrar uma imagem como contexto.

Foi num desses momentos que acabou por acontecer que uma publicação de um grande canal televisivo monopolizou o nosso jantar.

A notícia tinha, à partida, o intuito de informar. No entanto, como conhecíamos a pessoa mencionada no artigo, ficámos ainda mais curiosos acerca do seu teor. Ao lê-la, reparámos numa gafe que, infelizmente, aparenta ser cada vez mais comum no jornalismo actual: o título não correspondia à verdade nem ao que era efectivamente descrito no texto.

O sucedido deu origem a uma discussão sobre a importância que a simples escolha de uma palavra pode ter na interpretação de uma notícia.

Sei que somos humanos e que temos o direito de enganar-nos naquilo que dizemos ou escrevemos. No entanto, não podemos ignorar que estamos a falar de um grande órgão de comunicação social, cuja responsabilidade perante o público exige um cuidado acrescido. Por isso, uma discrepância desta natureza não deveria ter passado despercebida.

Aprendemos desde cedo que um título deve reflectir o conteúdo do texto que o acompanha. Neste caso, isso não se verificava. A ideia transmitida pelo título não correspondia à informação apresentada no artigo. Bastou uma palavra mal-empregada para induzir o leitor em erro e alterar a interpretação dos factos.

Será que estamos perante uma escolha descuidada ou perante a tentação de utilizar palavras que gerem mais cliques, mesmo que comprometam a exactidão da informação?

O jornalismo parece estar, cada vez mais, preso a esta lógica: gerar opiniões, captar a atenção e, acima de tudo, conquistar cliques. E é precisamente esta tendência que, enquanto amante da comunicação e do jornalismo, tenho dificuldade em aceitar. Custa-me pensar que a verificação dos factos, um dos pilares fundamentais da profissão, possa ser relegada para segundo plano quando o compromisso deveria ser, antes de mais, com a verdade e com quem nos lê.

A verdade é que, depois de discutirmos esta falha, contactámos a pessoa em questão. Esta acabou por alertar o canal para a necessidade de alterar o título, contribuindo, de certa forma, para preservar a sua credibilidade. Uma intervenção que talvez nem tivesse sido necessária se a informação tivesse sido devidamente verificada e a escolha das palavras tivesse merecido a atenção exigida.

É curioso pensar que, neste episódio, quem poderia sair prejudicado não seria apenas a pessoa mencionada na notícia, mas também o próprio órgão de comunicação social. Tudo por causa de uma palavra capaz de alterar o sentido de todo o conteúdo. Afinal, o título estava correcto em quase tudo, com excepção de uma simples palavra que acabou por distorcer a mensagem.

Custa-me acreditar que situações como esta continuem a acontecer com tanta frequência, sobretudo numa altura em que o acesso à informação e a possibilidade de verificar os factos estão à distância de poucos segundos. Ou será que esta facilidade nos transmite uma falsa sensação de segurança? A informação está cada vez mais acessível e chega-nos a uma velocidade impressionante, mas a rapidez com que a adquirimos não pode determinar a superficialidade com que a tratamos. Caso contrário, ganhamos em quantidade aquilo que perdemos em qualidade.

O título deve contextualizar, orientar e despertar o interesse do leitor, mas nunca à custa da verdade. 

Vivemos numa sociedade frequentemente acusada de ler pouco e de se ficar pelas manchetes, tomando-as como retratos completos da realidade. Quando isso acontece, um título deixa de ser apenas uma porta de entrada para a notícia e passa a ser, por si só, a própria notícia para quem não vai além dele.

É precisamente aí que reside o perigo. Porque, quando uma palavra é suficiente para alterar a percepção dos factos, a responsabilidade de quem informa torna-se ainda maior.

E, para mim, não há nada mais perigoso do que a desinformação.

Sandra Fernandes

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