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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Entre a indiferença e o palco digital

13/04/20264 Minutos de Leitura
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Vivemos tempos de um paradoxo aterrador, caro leitor. As janelas para o mundo nunca foram tão amplas, mas a nossa visão parece cada vez mais embaciada por uma névoa de apatia. Diariamente, somos inundados por relatos, imagens e sons de conflitos armados que retalham geografias e vidas. Seria, talvez, compreensível que o silêncio ganhasse espaço se estivéssemos todos sob o mesmo fogo, ocupados com a sobrevivência imediata. Mas o caso não é esse. Para muitos de nós, a guerra é um conteúdo de uma notícia, algo que se consome entre um café e uma distração qualquer.

O que se assiste, caro leitor, é a uma preocupante “anestesia da alma”. Existe uma indiferença quase técnica perante o sofrimento alheio. O horror tornou-se rotina. Por outro lado, onde a indiferença não reina, surge um fenómeno igualmente bizarro: o interesse desmesurado pela opinião como troféu. Nas redes sociais, as tragédias são convertidas em campos de batalha retóricos. Comentários e opiniões são lançados com a violência de mísseis, erguidos como verdades absolutas por quem, no conforto do seu sofá, acredita ter a solução final para dilemas milenares.

É de um cinismo atroz observar como, em pleno século XXI, com toda a bagagem dos Direitos Universais, se fala publicamente em extermínio de pessoas como se de uma estratégia de tabuleiro se tratasse. Como é possível que tais discursos ecoem sem que a estrutura do mundo. estremeça? Os Direitos Humanos não são sugestões de etiqueta; são o último baluarte contra a barbárie. Neles, não existe a “morte por interesse”, nem a vida de um ser humano pode ser sacrificada no altar de conveniências geopolíticas ou ideológicas.

Pois é, caro leitor, temo em dizer que todos estamos no mesmo saco: os que poderiam fazer, não o fazem por motivos diversos. Por outro lado, os que pouco podem fazer, alguns nem indignados ficam. Alguns opinam, outros ainda opinam sobre a opinião de outros.

Assistimos a uma espécie de “metadiscussão”, discutimos a forma como o outro se indigna, mas esquecemo-nos da vítima que deu origem à indignação. Os motivos para este imobilismo podem ser politicamente importantes ou estrategicamente calculados, mas pergunto-me: serão esses mesmos motivos humanos? Onde fica a pulsação da empatia quando o cálculo do lucro ou da influência se sobrepõe ao valor de uma existência?

Estou triste com tudo o que se está a passar pelo mundo. E acredito que o caro leitor também esteja. É uma melancolia pesada, que nasce da percepção de que a tecnologia avançou quilómetros, enquanto a nossa ética parece ter recuado séculos. No entanto, nem tudo é sombra. Sei também que um dos meios de ajudar é a solidariedade, que muito tem sido praticada, sobretudo após as catástrofes naturais que têm fustigado o mundo ultimamente. É aí, nesse gesto voluntário de estender a mão a quem tudo perdeu, que ainda reencontramos o rasto da nossa humanidade.

Talvez o segredo para não nos perdermos nesta névoa seja recusar o papel de meros espectadores ou comentadores de bancada. Talvez seja necessário voltar a sentir o peso da palavra “humano” e recordar que, quando o direito de um é esmagado, o tecto de todos nós começa a ceder. A indignação é o primeiro passo para a acção; sem ela, caro leitor, somos apenas sombras a ver o mundo arder através de um ecrã.

Helena Fernandes

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