O silêncio por aqui tem espessura. Quem nasce e vive neste concelho, que é o prolongamento da infância feliz no colo materno, aprende a ler os dias pelo barulho do rio e pelo vento norte, aprende a ler o tempo olhando o brilho nos olhos dos socalcos do nosso chão.
Vivo aqui há séculos sem conta, enrolo-me, ágil, pensamento felino, nesta quietude que não é deserta: é uma paz preenchida, o meu compasso natural. Depois, chega Agosto. Há quem fuja, mas eu fico. Olho para a rapaziada que chega, carregada com tendas e mochilas, e não vejo uma invasão, vejo uma corrente fraterna que me torna um deus maior.
A vila duplica, a fila do pão cresce, os cafés enchem-se de sotaques do mundo inteiro. Para quem passou a vida a ver os jovens partir, é como sentir os nossos filhos entrando-nos quinteiro adentro.
O Festival trouxe-nos orgulho. Deixámos de ser apenas o ponto no mapa interior que as pessoas esqueciam no Inverno. Passámos a ser o sítio onde a música acontece primeiro. O comércio mexe, a vila ganha fôlego financeiro para o resto do ano e, acima de tudo, o nome da nossa terra ganha uma dignidade bonita. Claro que o trânsito se complica e o teu banco habitual no jardim fica ocupado por miúdos que discutem bandas de que nunca ouviras falar. Mas há um respeito invisível neste Festival. Eles tratam o Taboão com amor, como se fosse deles, e de certa forma é.
Quando a última banda desliga os amplificadores e os carros começam a circular em direcção à auto-estrada, a vila esfrega os olhos e respira fundo, ou será que suspira?O silêncio regressa, lento, a ocupar as fendas das pedras e as margens do Coura. Fica o pó na terra, os lucros nas caixas registadoras e a certeza de que pertencemos a um sítio que é o mais especial dos sítios.
E depois, volto a caminhar sozinho, com o rio a correr no lugar do costume, tu voltas a sentar-te no teu lugar do banco do jardim, e nós voltamos a olhar os socalcos que, não tarda, sorrirão aquele sorriso que parece fazermos cócegas na espinha.
Como é bom estar por cá enquanto a vida fizer escárnio da morte.
MANUEL TINOCO










