Há um momento, depois de tomada uma decisão ponderada, em que se cumpre o que está decidido por lei e em que se descobre que ser ponderado não basta. Pesamos os argumentos, seguimos o princípio do «equilíbrio reflexivo» de John Rawls.
Depois chega a resposta que não discute a decisão, não aceita a democracia, prescindindo de direitos que lhe são próprios, e apenas transporta o insulto.
É aí que a serenidade deixa de ser um estado e passa a ser uma tarefa.
Séneca, que sobre isto escreveu como poucos, distinguia entre a injúria, como afronta, e o insulto, como mentira, com termos que descredibilizam somente quem os profere. «Nenhum sábio recebe injúria», dizia, não por arrogância, mas porque compreendera que a ofensa precisa da nossa colaboração para existir.
O insulto atira-se num momento de radicalização, ou de um comportamento indigno, cabendo ao outro lado decidir se o apanha ou não com as suas próprias mãos.
Convém, com efeito, olhar para quem insulta. O insulto diz mais de quem o profere do que de quem o recebe, uma vez que mostra alguém que, não podendo rebater os argumentos, ataca as pessoas com palavras soezes, chafurdando numa lama que acaba por salpicá-lo, sobretudo quando os demais se levantam e reparam que o rei — que é quem ofende — vai nu.
No fundo, é uma confissão de derrota disfarçada de ofensa. Responder com serenidade não é fraqueza; é recusar descer ao terreno onde o outro joga melhor, ou ao terreno onde outros o mandam jogar, que é bem pior para a credibilidade de uma pessoa.
Manter a serenidade perante o insulto é uma forma de fidelidade à decisão que tomámos. Se foi ponderada, sustenta-se sozinha e não precisa que a defendamos aos gritos.
Manter a serenidade, portanto, não significa passividade, mas o reconhecimento de que o veredicto de quem insulta carece de autoridade moral e intelectual.
Daí que a serenidade perante a agressão verbal seja a prova definitiva de que a nossa escolha foi tomada com base na verdade, e não na vontade de agradar a quem não sabe que a democracia é um jogo, com regras aprovadas e ideias que fazem parte do bom senso político.
Porém, passados dois mil anos, há ainda quem precise de aprender as suas sábias lições, por exemplo, pela leitura de “Como manter a calma (mesmo quando não é fácil)”, publicado em 2024 pela Ideias de Ler, numa adaptação do ensaio “De Ira”, escrito por Séneca no século I.
José Augusto Pacheco











