Ontem, caro leitor, numa conversa de café, falava com um amigo sobre a profissão de taxista, o que foi e o que é. Recordávamos o tempo em que não havia concorrência de plataformas digitais, mas sim uma exclusividade servida pela necessidade.
Esta profissão corre no sangue limiano do meu marido e dos meus filhos, a minha família. O meu sogro, o Sr. José, foi um taxista de renome na praça de Ponte de Lima. Herdou o ofício do pai, que deixou aos filhos uma praça com quatro carros. O Sr. José é o exemplo vivo de que o táxi era mais do que um transporte: era um centro de informação. Homem culto, excelente contador de histórias e, acima de tudo, um ouvinte atento, saciou a sua curiosidade nas palavras dos inúmeros passageiros que transportou.
Das muitas viagens que recorda, as mais marcantes são as de longo curso. Lisboa era destino frequente, mas eram as viagens até França que melhor ilustravam a alma portuguesa da época: a da emigração no seu auge, de famílias inteiras a partir em busca de um sonho que o Portugal de então não conseguia oferecer.
Nessa conversa, o meu amigo disse-me algo simples, mas revelador. No tempo em que a liberdade era vigiada, quem partia deixava para trás os ascendentes. Nessas casas, e em tantas outras, não existia automóvel próprio. O taxista era, por isso, uma figura central na logística das famílias. Nos anos 70 e 80, era uma profissão de sucesso porque o carro era um luxo de poucos. Lembra-se disso, caro leitor?
Hoje, a crise do setor não se explica apenas pela entrada da Uber ou da Bolt. O meu amigo Tomás apontou o óbvio: hoje, quase todas as famílias têm dois ou três carros na garagem. O automóvel democratizou-se, mas essa liberdade de movimento trouxe uma nova amarra.
Passámos, caro leitor, de um país rico com uma população pobre, para um país que parece teimar em não sair do mesmo lugar. Pergunto-lhe, caro leitor: não estaremos prestes a ver o caminho inverso devido ao “bailado dos combustíveis”?
Recentemente, a Autoridade da Concorrência concluiu o que todos sentimos no bolso: em Portugal, a gasolina e o gasóleo são mais baratos do que em Espanha ANTES DO IMPOSTO. No entanto, a carga fiscal inverte a balança, tornando-nos vizinhos mais pobres e com combustível mais caro. Com a escalada do petróleo devido às tensões no Médio Oriente e a instabilidade no Estreito de Ormuz, a situação torna-se asfixiante.
Agora, faço um apelo à gestão e uma não ao confisco, caro leitor!
Como é possível que os nossos políticos não percebam que governar não pode ser apenas o exercício fácil de tirar ao povo? Vivemos numa democracia e, como tal, tenho o direito de me sentir protegida e respeitada. Mas também preciso de ser libertada.
Libertada de uma carga fiscal que ignora o nível dos nossos ordenados. É preciso exigir que os nossos governantes sejam mais “idiotas”, mas no sentido socrático da busca incessante por novas ideias, para encontrar formas de encher os cofres do Estado sem amordaçar a vida dos cidadãos.
Caro leitor, o táxi do Sr. José levava-nos ao destino. Hoje, parece que o destino do nosso esforço serve apenas para alimentar uma máquina fiscal que não nos deixa arrancar.
Helena Fernandes










