Não foi com surpresa que recebi a resposta do ChatGPT, um modelo de linguagem generativo de inteligência artificial (IA), quando lhe perguntei se sou a favor ou contra a IA.
Reconhecendo que não tenho um manifesto pessoal explícito que declare algo como sou a favor ou sou contra a IA, a resposta admite, de forma muito delicada e ponderada, que os contextos em que me insiro sugerem que não encaro a IA como “algo neutro ou trivial.”
E essa é, de facto, a posição mais correta, pois a IA jamais pode ser considerada apenas mais uma tecnologia. Trata-se de uma mudança que, de forma acelerada, provoca transformações profundas em todos os níveis da sociedade, com consequências de dimensão oceânica.
Por outro lado, não nos devemos deixar deslumbrar, pois a IA é apenas a face mais visível de um icebergue que encerra uma forma de capitalismo que, de modo inevitável, transforma não só os modos de produção, mas também as formas de aprender, de pensar e de estar em sociedade.
Temos, por isso, de encarar a IA como um elemento que transforma profundamente as práticas sociais e que se afirma como um poderosíssimo fator de mudança, assente na “conectividade”, que nos mantém permanentemente ligados e integrados em comunidades virtuais, na “digitalização”, que altera o nosso quotidiano, e na “dataficação”, isto é, na criação de bases gigantescas de dados que alimentam a IA sempre que lhe solicitamos uma resposta ou realizamos as operações mais corriqueiras nos dispositivos que utilizamos diariamente.
Quem lê “A Era do Capitalismo da Vigilância: A Disputa por Um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder”, de Shoshana Zuboff, ou “Humano, Demasiado Humano: O que nos Torna Únicos na Era da Inteligência Artificial”, de Neil Lawrence, dificilmente poderá sustentar que a IA seja apenas uma forma de entretenimento, tornando-se, ao invés, sobremaneira atento aos seus riscos e perigos.
Com efeito, é inevitável adotar uma postura crítica face às consequências da sua utilização como ferramenta que atinge todos os níveis da sociedade, influenciando inclusivamente o modo como acedemos à informação e a manipulamos em função de interesses muito diversos.
É esta postura reflexiva que mais defendo em relação à IA, sustentando que a sua presença nas nossas vidas deve ser cuidadosamente ponderada, de modo a servir propósitos essencialmente humanos e eticamente fundamentados, e não ser encarada apenas como uma mera ferramenta tecnológica independente.
José Augusto Pacheco










