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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quotidianos

09/03/20263 Minutos de Leitura
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Não há dúvida de que é no tempo que melhor sentimos o peso das palavras, sobretudo quando elas querem dizer muito mais do que uma simples constatação.

Foi há vinte e seis anos que estive pela primeira vez em Florianópolis — Floripa, como lhe chamam os que aqui vivem, e como talvez já pudesse também chamar-lhe. Corria o mês de maio e a magia desta ilha atlântica revelou-me um Brasil que, de certo modo, só existe aqui. Um Brasil que muda de rosto a cada região, dentro da imensidão quase continental do país.

Fiquei então três longos e reveladores meses. Depois disso fui regressando, quase sempre de passagem, ano sim, ano não. Em maio de 2008 voltei a demorar-me outros três meses, e, desde então, fui-me habituando ao passo humilde de quem percorre, pouco a pouco, os sete cantos de uma nova geografia que também é feita de emoções.

Com o passar dos anos, acumularam-se as recordações: pessoas, lugares, ambientes. Tudo se entrelaça numa memória feita de amizades, cumplicidades e projetos que, entretanto, foram abrindo caminho a novos horizontes.

A admirável alegria de estar mais uma vez em Florianópolis, com uma visita fugaz a Biguaçu, às portas da grande cidade, ainda que por escassos oito dias, é o que me fortalece, agora com um conhecimento mais profundo do Brasil e, sobretudo, dessa cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro.

Por isso, regressar agora a Florianópolis, ainda que apenas por oito dias e com uma breve visita a Biguaçu, ali mesmo às portas da cidade, tem sempre qualquer coisa de reencontro interior. Regresso mais consciente do Brasil profundo e, também, com a inolvidável memória do Rio de Janeiro.

Desta vez, numa semana tão breve, quatro dias foram inevitavelmente de trabalho, porque a escrita e o estudo não se aposentam. Mas os outros três ficaram entregues à beleza serena da Lagoa da Conceição, aos novos espaços de tertúlia, às demoradas conversas com pessoas amigas, e inevitavelmente à tristíssima ausência de rostos alegres que outrora fizeram parte deste lugar.

É então que volto à geografia. Os lugares, e percebemos isso com o tempo, não são apenas paisagem, mas também pontos de encontro de vontades, de histórias partilhadas, de lentos afetos que fazem uma comunidade.

Se a minha geografia fosse esta, talvez aqui ficasse. Mas não é. Por mais que as recordações me prendam, chega sempre o momento de partir. Parte-se com uma espécie de lúcida embriaguez dos lugares, como se tudo já tivesse sido assimilado, enquanto o presente insiste em devorar-nos ao afastar-nos de contextos tão belos. E lá estamos nós outra vez, obrigados a reaprender o caminho entre pessoas que pouco ou nada sabem do passado que nos trouxe até aqui.

Foi exatamente esse doce amargo de boca que senti neste regresso à cidade dos mil encantos, a mesma que outrora enfeitiçou os seus primeiros habitantes, colonos vindos das ásperas e verdes terras dos Açores.

José Augusto Pacheco

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