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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Freguesias

Romarigães. Sobreiro de Santa Rita é mais do que uma simples árvore

24/06/20254 Minutos de Leitura
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Hoje trago-vos uma história da nossa terra suspensa entre o que foi e o que se diz, entre a realidade e a lenda.

Dizem os mais antigos — e com a voz baixa, como se a árvore ainda escutasse — que o sobreiro velho, aquele que se ergue sozinho à beira da capelinha, não é árvore qualquer. É o Sobreiro de Santa Rita, e quem ali reza com fé pode, em segredo, tocar o impossível.

A história começou numa Primavera esquecida no tempo. Romarigães era ainda povo de enxada na mão e ceia à luz do candeeiro. Numa casa de pedra gasta pelo vento vivia a Maria da Assunção, mulher de poucas falas e muito trabalho. Tinha cinco filhos pequenos e um marido, o João do Vale, que adoecera de repente — um mal no peito, diziam, que o deixava sem fôlego nem força para se levantar.

As rezas na igreja não bastavam. Os médicos vinham e iam, abanando a cabeça, deixando receitas que ela não podia pagar. A fome rondava a casa como cão vadio.

Foi então que, numa tarde em que o céu parecia pesado de presságios, Maria decidiu subir ao monte. Levava nos braços o mais novo, adormecido. Ninguém soube ao certo por que caminho foi. Só se sabe que chegou ao velho sobreiro, esse que se ergue isolado, de copa larga e sombra funda.

Ali ajoelhou-se, e com os joelhos na terra molhada, implorou à Santa Rita, “advogada das causas perdidas” , que olhasse por ela. Que não fosse por ela, que fosse pelos filhos. Que desse saúde ao João, ou ao menos coragem para aguentar.

A lenda diz que o vento soprou diferente naquele instante. Que as folhas estremeceram como se sussurrassem uma resposta. E que, quando voltou a casa, o marido, ainda deitado, já não tinha febre. Em poucos dias, ganhava cor no rosto. Em poucas semanas, voltava à horta.

Maria, agradecida, voltou ao sobreiro. Levava um lenço branco, que introduziu no tronco esburacado. Disse que não era promessa feita de palavras, mas de silêncio — como se a árvore entendesse melhor assim.

Com o passar dos anos, outros começaram a ir. Gente com dores escondidas, com pedidos que não cabiam no confessionário. Mulheres com filhos por nascer, homens sem rumo, viúvas com a alma presa. E todos deixavam ali qualquer coisa: um ramo cruzado, um lencinho, um bilhete dobrado…

Hoje, quem passa pelo sobreiro sabe que está num lugar que não é só da terra, mas também do espírito.

Já poucos ouviram falar da Maria da Assunção, mas o seu gesto ficou. O sobreiro continua ali, mais calado do que nunca, mas firme. E há quem diga que, nas madrugadas de Maio, se as folhas se mexem mesmo sem vento, é porque a Santa Rita passou por lá.

O interesse na classificação do Sobreiro de Santa Rita como árvore de interesse público nasce não apenas da sua imponência solitária no alto do monte, mas sobretudo do seu valor histórico e cultural, entranhado nas raízes da memória colectiva de Romarigães. Mais do que árvore, é testemunha — de promessas sussurradas, de rezas murmuradas ao entardecer, de silêncios que guardam pedidos e gratidões. Ligado a tradições orais, lendas de fé simples e gestos repetidos por gerações, o sobreiro não pertence só à paisagem: pertence à identidade de um povo.

E é por isso que preservá-lo é, também, preservar a história invisível que nele vive.

 José Luís Freitas

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