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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quotidianos

27/10/20263 Minutos de Leitura
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Numa rua de Braga, àquela hora em que a cidade parece suspensa, duas jovens caminhavam, em passo moderado, ao lado de um homem de setenta e tais anos.

Não decifrei o assunto da conversa. 

Ouvi apenas a resposta de uma delas, dita sem candura: «Esse é um conceito de antigamente.» 

Podia ter dito «essa é uma cena antiquada». O efeito seria o mesmo, ou seja, acentuar o conflito de gerações, como se alguém ali representasse a prateleira do tempo passado.

Heraclito diria que ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio, e a jovem teria total razão: as águas correm e os conceitos nas águas mergulham e desaparecem.

Mas o mesmo Heraclito escreveu que nos mesmos rios entramos e não entramos, porque o que muda não apaga o que permanece. Mantêm-se, porém, os conceitos, entretanto explorados com sentidos diferentes, sendo aliás o que os jovens assumem no diálogo intergeracional. 

No diálogo sobre a velhice, Cícero põe Catão a defender que os velhos já não fazem o que fazem os jovens, mas realizam coisas maiores por intermédio do conselho, da autoridade ou do juízo, pelo que a vida não se mede pelos anos, mas sim pela prudência, sobretudo quando o tempo se torna numa personagem implacável.

Ao enunciar o «antigamente», a jovem criou no diálogo um obstáculo, assumiu uma atitude de afastamento ou colocou-se numa posição de superioridade. 

O «antigamente» problematiza, assim, numa conversa de ideias, algo que classifica (mais negativa do que positivamente) sem a necessária compreensão dos tempos, já que existir, no sentido heideggeriano, é receber uma herança, e recusá-la por inteiro é ficar sem pontos de apoio que são necessários no erigir de pontes de diálogo entre as gerações.

O homem da tal conversa poderá não ter considerado despicienda a observação da jovem, porque, decerto, foi compreensivo, não julgando esse momento de um encontro ou de uma fala em que os jovens tendem a assumir (e bem) que são eles que reservam o lugar no centro do futuro.

Não sei se o homem ensaiou resposta algum. Passei, ouvi e continuei o meu caminho, mas talvez esse homem do diálogo com as duas jovens tenha sorrido, com a serenidade de quem já ouviu frases parecidas, sabendo, como Hegel, que a coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer, e que um dia aquela jovem ouvirá a mesma frase, dita por alguém que ainda não nasceu.

O antigamente não é o lugar onde as ideias morrem. É precisamente o lugar onde nascem os futuros.

José Augusto Pacheco

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