Apesar de na última semana terem ocorrido alguns eventos no nosso país, eu decidi vir falar convosco acerca do nosso mais recente 21º lugar. E vocês questionam-me, mas 21º lugar de quê, Sandra? Este que poderia parecer um número ingrato, um lugar insignificante, desses que passam ao lado dos destaques e que se perdem entre palcos cheios de luz e vozes que tentam chegar a todo o lado. Mas para quem ouviu “Deslocado” com o coração aberto, como eu ouvi e ouço, esse 21º carrega muito valor emocional.
Na voz dos Napa, Portugal levou à Eurovisão uma canção que não precisava de vencer para ser vitoriosa. Bastava existir. Basta ser ouvida por todos nós que, de forma mais ou menos literal, vivemos deslocados ou temos alguém deslocado. Que saímos dos nossos lugares, não só geográficos, mas também afectivos, para tentar construir um caminho, longe da casa onde aprendemos a ser.
Sou natural de Paredes de Coura com uma costela Limiana. Foi nestas duas vilas, entre montes, afectos e rotinas simples, que cresci e me tornei no que sou hoje. Há alguns anos, parti rumo a Lisboa, a nossa capital, como tantos outros que, movidos pelos sonhos ou pelas oportunidades, deixaram a sua terra natal em busca de um futuro diferente. Lisboa recebeu-me bem, é verdade. Mas há em mim um bocadinho que nunca saiu de Coura. Porque casa não é apenas o espaço onde se dorme ou trabalha, casa é o sítio onde nos reconhecem sem que precisemos de dizer quem somos.
“Deslocado” foi isso: uma música que não gritou, mas que disse tudo. Que falou daquilo que muitos de nós sentimos mas raramente conseguimos articular, essa sensação de não pertencer. De morar numa cidade que é funcional, mas que não consegue, por mais que se esforce, ser lar. De carregar no corpo uma ausência silenciosa, como quem deixou para trás não só um lugar, mas também um pedaço de si. Eu gosto de recolher pedacinhos de todos os lugares por onde passo, no entanto, não posso omitir que só consigo chamar de meu cantinho à nossa vila, que com carinho e orgulho, aguarda por todos os meus regressos.
É no refrão simples e brutalmente honesto, “Por mais que possa parecer eu nunca vou pertencer àquela cidade”, que estamos nós, os deslocados. Todos os que telefonam aos pais ao domingo, os que levam tupperwares nas malas quando voltam, os que choram sozinhos em apartamentos alugados, entre reuniões e prazos. Os que todos os dias lutam por tornar os seus novos lares em Casas.
A música tem esse poder raro: de nos dar identidade quando andamos perdidos. De nos fazer companhia quando estamos rodeados mas sós. “Deslocado” não foi só uma canção num festival, é um espelho daquilo que muitos sentimos. E eu, sentada num sofá lisboeta, vi-me inteira nele. Algo em que raramente me revejo, por estar numa luta pela minha realização, momentos que ocupam por inteiro a nossa mente e fazem-nos suprimir a saudade de casa. É nas coisas mais simples que reparamos nessa falta de casa, ao ponto de a tentarmos trazer sempre connosco, procurando representá-la nos novos espaços onde encostamos a cabeça na almofada e adormecemos.
Não me interessa que tenha ficado em 21º. Para mim, foi o número um no mais importante dos palcos: o da verdade. Porque há músicas que são feitas para entreter, e há outras, poucas, que são feitas para encontrar. E esta encontrou-me.
A Eurovisão passou. Os palcos desmontaram-se, os países voltaram à sua rotina. Mas há canções que ficam. E esta, feita de dor suave e beleza crua, ficará para sempre no peito de quem sabe o que é partir. E, acima de tudo, de quem sabe que há coisas, como a casa, que nunca ficam verdadeiramente para trás. Casa é família, Casa são memórias, Casa é crescimento, Casa é viver, Casa é… Casa.
Sandra Fernandes






