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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quotidianos

23/06/20263 Minutos de Leitura
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Casa-se, descasa-se, enlaça-se, deslassa-se, ontem e hoje, mas hoje em dia com mais facilidade e naturalidade. É a lei da vida, de todos e de cada um, e só a cada um diz respeito, embora ninguém decida sozinho.

Serve este introito narrativo para falar de uma autorização de casamento.

Estamos em meados do século XIX. Em Parada, duas pessoas já maduras nas suas decisões, mas uma delas com menos de 25 anos, precisava de solicitar autorização judicial para casar. Tendo embora idade suficiente, pois a partir dos 12 anos já o poderia fazer, faltava-lhe o consentimento dos pais. E o pai não poderia autorizar, por se encontrar ausente no Brasil, decerto há muitos anos, e a mãe há alguns anos já partira.

Como mulher que era, Flor, de seu nome, iniciou o ritual do casório, num registo mais popular, com um requerimento ao juiz da comarca de Valença, porque a de Coura ainda não existia, o que só aconteceria dali a alguns anos, precisamente em 1875.

E se o desejo crescia de dia para dia, embora controlado num povoado onde os olhares de tudo desconfiam e tudo sabem também, visto que a comunidade é mesmo uma voz coletiva, a autorização demorava-se nas entranhas da burocracia.

Joaquim, o nubente prometido até à eternidade, desesperava. Gostaria de conhecer o juiz e de lhe perguntar a razão de tanta demora.

Bem perguntou ao abade da aldeia, que todos os lugares e todas as pessoas conhecia, quando sairia a autorização. Mas comprometer-se não queria, nem legal nem moralmente, sendo conhecedor das birras de certos juízes para desautorizar casamentos. Flor e Joaquim amavam-se, já todos o sabiam, mas esperar tanto tempo por uma respostinha era um sacrifício atroz.

Quase a completar os 25 anos, Flor recebeu o sim judicial para se casar com Joaquim, tendo de pagar um determinado valor em dinheiro, que há muito estava contadinho e embrulhadinho num pano de linho recebido de sua mãe como eterna recordação.

Mas havia um senão. Teria de indicar testemunhas que confirmassem a veracidade dos factos, atrasando o casório de que já toda a gente falava.

E aí preferiu adiar o casamento, criando laços de ódio em torno do pai que notícias não dera, e que, se chegassem, jamais seriam bem recebidas.

Flor e Joaquim casaram-se, sim, meses mais tarde. Ela com 25 anos feitos, ele com 29, muito próximo dos 30.

E a história termina aqui, mesmo que se diga que felizes foram e uma filharada criaram com o amor de quem soubera esperar.

José Augusto Pacheco

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