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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Destaques

O termómetro da nossa consciência

06/07/20264 Minutos de Leitura
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O termómetro não mente, mas nós teimamos em desviar o nosso olhar. Por estes dias, o Alto Minho não é a habitual sinfonia de verdes e frescura atlântica; é um território em suspenso, sufocado por uma vaga de calor impiedosa que nos atirou, sem anestesia, para um angustiante alerta vermelho. O ar pesa, a terra estala e o vento quente que atravessa as nossas serras parece trazer um aviso urgente. Estes acontecimentos, que outrora rotulávamos de “caprichos da natureza”, são hoje o espelho límpido de uma factura global que insistimos em adiar. A natureza não enlouqueceu, caro leitor; está apenas a reagir ao desequilíbrio que nós próprios alimentámos. Será que o meu caro leitor consegue sentir essa culpa?

A nossa responsabilidade não se esgota nas grandes metas climáticas decididas em gabinetes distantes. Ela joga-se aqui, no chão que pisamos, na forma como gerimos o nosso território e, acima de tudo caro leitor, na nossa conduta individual quando o risco espreita. É nos dias de canícula extrema que a fragilidade da nossa floresta se cruza com o pior da acção humana. Ano após ano, assistimos impotentes ao mesmo fumo negro que rasga o horizonte minhoto, alimentado, vezes demais, por um tripé trágico, o descuido cego, a ignorância atrevida e irritante ou, no mais sombrio dos cenários, a pura maldade criminal.

É incompreensível que, mesmo perante avisos reiterados, ainda subsista quem arrisque uma fogueira, uma queima ou o uso de maquinaria pesada em horas críticas. Se numas vezes é a negligência de quem acha que “comigo nunca acontece”, noutras é o dolo de quem faz do fogo uma arma ou uma vingança. No entanto, caro leitor, há uma variável nesta equação que mudou radicalmente nos últimos anos e que os criminosos, incluído os distraídos, insistem em subestimar uma realidade, hoje a impunidade já não é uma garantia.

O avanço das ciências criminais e da investigação forense transformou por completo o combate ao flagelo dos incêndios. Hoje, a Polícia Judiciária e as brigadas especializadas da GNR não procuram apenas fumo, eles descodificam a linguagem da cinza. Através do método da evidência física, da análise laboratorial de acelerantes e do estudo meticuloso da geometria do fogo, a ciência consegue apontar com precisão cirúrgica o metro quadrado exacto onde a primeira faísca nasceu. Falo com algum conhecimento de causa, sendo eu uma recente especialista em gestão de fogos rurais, O “quadro de indicadores de actividade humana” e o cruzamento de dados tecnológicos tornaram quase impossível ao incendiário ocultar o seu rasto. A causa é determinada, o culpado é traçado e a justiça, mais cedo ou mais tarde, bate à porta.

A tecnologia e a ciência fazem a sua parte no laboratório e no tribunal, mas o verdadeiro teste de civismo acontece nas nossas comunidades. Proteger o Alto Minho não é apenas uma tarefa das forças de segurança ou dos bombeiros, cuja coragem nunca será demais enaltecer. Cabe-nos a nós ser a barreira contra a ignorância. Olhe à sua volta, caro leitor, e perceba que este alerta vermelho não é apenas meteorológico, é um sinal de alarme para a nossa própria consciência. O futuro da nossa paisagem depende do respeito que demonstrarmos por ela hoje. E tão importante ainda será, caro leitor, reflectirmos sobre o que deixaremos aos nossos descendentes. E sobretudo, que seja um exemplo! 

Helena Fernandes

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