Todos os dias acordo com duas perguntas na cabeça: o que é que vou fazer hoje? E será que se perguntar à Inteligência Artificial, ela sabe a resposta antes de mim?
Pode parecer exagerado, mas começa a ser difícil viver sem dar de caras com algo que tenha sido produzido por uma máquina. O TikTok já sabe o que me apetece ver antes, sequer, de eu saber o que me apetece ver. O Instagram produz uma selecção das páginas que sigo conforme as pessoas e os interesses com que costumo interagir. E agora até os textos, as músicas, os roteiros de viagem e os planos de treino podem ser feitos por um “assistente virtual”, acabámos de entrar numa dependência camuflada de ajuda.
Confesso que apesar de me assustar também acabo por recorrer à Inteligência Artificial. Quando o mundo te dá uma ferramenta que responde em segundos, não vais complicar e pesquisar nos infindáveis websites, e já nem falo de livros, nem de perder meia hora a escrever um e-mail formal. Mas há dias em que me apanho a pensar: e se eu estiver a perder alguma coisa nisto tudo? E se o meu senso crítico estiver aos poucos a ser absorvido pelo uso deste facilitador?
Não é pavor de ficção científica. Não acho que as máquinas vão dominar o mundo ou roubar os nossos pensamentos. Mas às vezes parece que estamos a abdicar de sentir e explorar certas coisas com tempo. O branco da página, o tédio criativo, a dúvida entre duas palavras. Aquilo que antes fazia parte do processo, agora é só um obstáculo que queremos ultrapassar com uma resposta rápida.
E no meio disto onde é que fica o “eu”? O toque pessoal? A frase que só eu escreveria, a metáfora que só faz sentido para mim? Se tudo pode ser feito por alguém que não tem passado, nem medo, nem amor, então o que é que me torna diferente?
Não é um discurso contra a tecnologia. É só uma tentativa de resistir à ideia de que tudo tem de ser perfeito, rápido e optimizado. Há beleza nas coisas que nos saem tortas. Nos textos com vírgulas a mais (ou a menos), nas ideias que só surgem de uns três ou quatro debates. Há beleza na incerteza e na dúvida, e isso nenhuma máquina consegue ter.
Talvez a Inteligência Artificial nos ajude, e eu acredito que sim. Mas não devia substituir a nossa própria voz, o nosso sentimento e pensamento. Deve sim, ser mais uma ferramenta do que uma bengala. Porque, no fim do dia, ainda sou eu que tenho que escolher a roupa, responder às mensagens difíceis, decidir se vou ou não enviar aquele áudio com 3 minutos a divagar sobre a vida.
E há uma coisa que, por mais avançada que esteja, a IA ainda não sabe como é estar viva. Com todas as contradições, silêncios e mini colapsos. Isso, por agora, continua a ser só nosso. E ainda bem.
Por isso eu apoio que devemos sim recorrer a este auxílio que a evolução nos proporcionou, mas não devemos torná-lo na nossa identidade. Deve existir sempre uma barreira entre aquilo que nós somos e a influência da Inteligência Artificial na nossa concepção.
Sandra Fernandes










