Hoje trago o assunto da confiança à baila, isto porque comecei recentemente a ler um livro denominado “Trust “, da autoria de Hernán Díaz. Apesar de ainda estar no início, muitas vezes dou por mim num silêncio pensativo provocado apenas por livros que, de alguma forma, nos tocam e mexem connosco. Atrevo-me a dizer que é quase semelhante a uma conversa com alguém que escolhe cuidadosamente as palavras e obriga-nos a recorrer à paciência quando as estamos a ouvir, pois aquilo que ouvimos terá um significado subjacente, bem mais profundo.
Existem livros que falam connosco em voz alta, que nos deixam mais alerta pelo drama imediato e pela urgência. No entanto, “Trust” não é um livro desse gênero. Ao invés de nos alertar ele testa-nos. Com esta leitura sinto-me tentada a acreditar que tudo o que ainda não vi irá valer a pena pela espera. Uma máxima que nos dias de hoje é desafiante, pois vivemos sucumbidos pela ansiedade, pelos ritmos apressados e a quase exigência de respostas instantâneas.
Retomando a palavra do título “Trust”, que em português é Confiança. Esta palavra é reflectida no enredo, não somente pelas personagens que ainda se escondem, mas também pela narrativa, pelo autor e pelo próprio caminho. Chega a ser engraçado pois conseguimos ver a vida comum espelhada neste livro. A realidade é que queremos sempre certezas antes de nos entregarmos, queremos garantias antes de dar o “próximo” passo. Mas esquecemo-nos que confiar não é um contrato com termo certo mas sim um salto com pouca luz e muito aliado à esperança. Por isso é que somente uma pessoa muito inocente, que não tem nada “a perder”, é que consegue confiar em tudo e todos. Mas se confiarmos apenas quando estamos seguros de tudo, então não estamos a confiar na verdade.
Nos dois primeiros e únicos capítulos que li até agora, já se percebe que vive ali uma “perfeição estudada”. Uma vida aparentemente impecável. Dinheiro, influência e ordem. Mas que para qualquer olhar atento existe a percepção de que quando existe controlo absoluto existe também muito medo por trás. Ninguém polia tanto uma superfície caso não houvesse fendas para esconder.
Mas isto trata-se de uma realidade de grande parte da nossa vida, mostramos o melhor, o alinhado aquilo que parece correcto. A fotografia perfeita, o comentário repensado e seguro até mesmo o “está tudo bem” automático. No entanto, suprimimos com muita força as falhas como se fossem um crime. Mas o que será a confiança se não a coragem de admitir as fragilidades? Confiar em alguém, pelo menos para mim, é permitir que nos vejam desfocados, imperfeitos, ou seja, humanos.
Com esta leitura reflecti sobre os caminhos internos que percorremos sem testemunhas, as dúvidas que carregamos, as respostas que fingimos ter, os medos que disfarçamos com certezas, e acima de tudo o quanto custa confiar em nós próprios quando existe a ausência de uma certeza.
Com esta leitura retiro um conselho invisível para a vida: não saltes para conclusões, não exijas verdades prontas, não julgues o início como se fosse o fim. Dá espaço para a história respirar e para ti também.
E assim continuo a virar páginas com a sensação com que, tantas vezes, vivo os dias, desconfiando, acreditando, duvidando e avançando. Porque haverá sempre um momento quase invisível em que percebemos que confiamos. Que já nos rendemos e estamos dentro da história, mesmo que o rumo nos seja desconhecido.
E talvez seja isso o mais bonito: perceber que, mesmo sem saber tudo, sigo. Mesmo com medo, avanço. Mesmo com dúvidas, confio. E página a página, no livro e dentro de mim, descubro que a confiança nunca nasce da certeza, mas sim da escolha. E eu escolho continuar. Não porque sei o final, mas porque acredito no caminho.
Por isso, hoje peço-vos que continuem e arrisquem. Porque tal como a minha mãe sempre me ensinou: “A perfeição é o diabo, por isso não procures ser perfeita, procura ser feliz e realizada. Amo-te como és e confio em ti”.
Sandra Fernandes










