Coura é amor…
Era um palco gigantesco, daqueles que parecem tocar o céu, erguido no coração do “CouraMe” como um altar à emoção. As luzes dançavam em feixes quentes e vivos, cruzando-se num bailado de cor que cortava o escuro. O cenário, imponente e mágico, parecia ter saído de um sonho e… um silêncio expectante que se podia ouvir com o peito.
O murmúrio do público cessou quando, de súbito, uma figura pequena caminhou para o centro do palco. Sozinha. A luz prendeu-se nela como um abraço. Era uma menina. Pequena, delicada, mas firme nos passos. Trazia nos olhos o brilho de quem sonha acordado e nas mãos a leveza de quem sabe que a arte começa no coração. O público, rendido à surpresa, reagiu com uma ternura que ecoou como melodia. Sorrisos, olhos húmidos, palmas lentas a crescerem em uníssono. Não era preciso música — a presença dela enchia tudo.
A menina sorriu, e naquele gesto simples havia uma reverência: curvou-se como se tivesse anos de palco, como se já conhecesse os segredos antigos da gratidão. Era um agradecimento puro, desses que não se ensinam — sentem-se. Nas sombras laterais, um homem observava. Os olhos brilhavam mais do que os projetores. Era o pai. O dono do palco. O rei daquele mundo de som, luz e espetáculo. Mas naquele instante, era apenas um pai. Um homem embevecido a ver a filha ocupar, sem pedir licença, o trono que a vida lhe começava a oferecer. Ali, naquela menina iluminada, estava o futuro.
Estava a herança que não se escreve em testamentos, mas em gestos e silêncios partilhados. O palco, que tantas vezes fora casa de outros, agora ganhava um novo nome — o dela. E a vida, comovida, aplaudiu também!
(José Luís Freitas – a quem agradeço a infinita beleza destas poéticas palavras)
José Augusto Pacheco










