As urnas falaram no Alto Minho. No passado dia 12 de Outubro, o povo saiu de casa, uns com o passo lento da dúvida, outros com a convicção apressada do hábito ou da certeza para escolher quem haveria de conduzir o destino dos concelhos minhotas nos próximos quatro anos. Foi um acto cívico de esperança e de memória, de quem sabe que votar é também um gesto de pertença. Estes resultados trouxeram uma mudança importante para o panorama político do Alto Minho, distrito de Viana do Castelo. Um distrito outrora pintado na sua maioria em tons de rosa e uma direcção à esquerda, mudou de rumo e de cor, agora na sua maioria laranja e com uma hipotética tendência à direita.
No distrito de Viana do Castelo, o mapa político mudou em algumas margens, mas manteve-se firme noutras. Em Paredes de Coura, uma terra de montes suaves e rio falante, Tiago Cunha, filho da terra com ascendência e descendência courense, saiu vencedor. Um resultado previsível, tendo em conta vários factores que o diferenciava dos outros candidatos, sem tirar o mérito, a competência e sobretudo a coragem destes últimos. Sucede, assim, a Vítor Paulo Pereira, homem de voz firme, presença discreta, e empatia carinhosa que deixou uma marca profunda no concelho.
Vítor Paulo Pereira foi, durante anos, o rosto de um poder local que não se fazia de palanques, mas de proximidade. Governou com o ouvido colado à terra, e talvez por isso tenha conseguido erguer tanto e satisfazer parte das necessidades deste concelho de pequena dimensão. Traçou o caminho em prol do direito à habitação, apostando no investimento para tentar cobrir essa necessidade, apostou na cultura em diferentes frentes e esmerou-se em semear cultura nos mais pequeninos, enriquecendo-lhes o
currículo com competências culturais, tornando-os mais sensíveis e criativos. Apostou na criação de emprego e na modernização de infra-estruturas que há muito pediam atenção. O seu mandato não foi apenas uma sequência de obras, foi, antes de mais, um exercício de escuta. Soube transformar o discurso político em diálogo.
Tiago Cunha, que durante anos foi o seu vice-presidente, herda agora uma casa construída com tempo e zelo. Não terá a tarefa fácil de inovar sem quebrar a continuidade, de afirmar-se sem apagar o nome de quem o antecedeu. Mas a vitória que alcançou é, acima de tudo, um sinal de confiança dos courenses na sua gente, no rosto familiar que conhecem dos cafés, das romarias, das feiras e das assembleias.
E aqui, caro leitor, está o cerne da questão! Nas autarquias, mais do que em qualquer outra eleição, o voto é um gesto de reconhecimento e confiança. As pessoas votam em quem lhes conhece o nome, a história e os caminhos. Um presidente que é ‘da terra e não precisa de GPS para encontrar os problemas, Sabe onde a estrada se estreita, onde o rio ameaça sair da margem, onde falta o transporte para a escola. É alguém que compreende o ritmo da aldeia e o silêncio da montanha.
Há quem diga que o localismo é um entrave à modernidade. Enganam-se, caros leitores, é precisamente o contrário! um presidente que conhece o território é aquele que o pode projectar melhor para o futuro. Porque só quem ama o lugar pode querer transformá-lo sem o desfigurar.
Assim, no pós-12 de Outubro, Paredes de Coura reafirma a lição que o Alto Minho tantas vezes nos deu, que a política de proximidade continua a ser a mais genuína das democracias. Que as grandes decisões começam sempre com pequenas conversas. E que, apesar das bandeiras e das cores, é o conhecimento da terra e das pessoas que faz a diferença entre governar e apenas administrar. Tiago Cunha parte agora com essa responsabilidade. manter viva a ponte entre o poder e o povo, entre o progresso e a identidade. O futuro dirá se o fará com a mesma sabedoria com que Vítor Paulo Pereira soube ouvir o som das águas do Coura e transformá-lo em política viva.
Porque, caro leitor, na política local, tal como na vida, quem conhece o caminho, raramente se perde.
Helena Ramos










