Tudo começou no curso School of Ceos da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política, da Universidade do Minho, que Vítor Paulo Pereira frequentou. O curso tinha como objectivo principal os desafios associados ao lançamento ou crescimento de uma pequena empresa ou negócio. O seu trabalho chamado de “Um Sonho Feito de Excel” mostrava logo que era necessário um bom plano de negócios para que a criação de um espumante em Paredes de Coura fosse possível. Os seus professores, conta, até o aconselharam a escolher outro tema porque “além das condições naturais da terra, o mercado do vinho é extremamente competitivo”, diziam. Mas ele, como é seu timbre, teimou em prosseguir com o desafio.
Sabia também da ousadia do desafio, porque a falta tradição vinícola em Coura também não ajudava. Ao longo de dezenas de anos criou-se uma ideia consensual, tanto em Coura como nas terras vizinhas, de que não era possível fazer vinho de qualidade em Paredes de Coura, com rótulo e capaz de ser viável comercialmente. Os forasteiros até gozavam que em Coura só era possível fazer vinho de giesta. A maior parte dos courenses produzia para consumo próprio e apenas os vinhos da Marnota e da Dona Maria Cândida tinham uma qualidade reconhecida, mas eram vendidos a granel aos bons restaurantes e tabernas. Coura foi sempre conhecida pelo Celeiro do Minho. Os cereais ocuparam sempre as terras mais férteis, apenas nas bordas se plantava vinha para consumo próprio ou nas latadas no meio das aldeias.
Mas o ex-presidente da Câmara sabia que com conhecimento e tecnologia era possível ultrapassar as impossibilidades, confessou ao NC. Até porque a sua amizade com Luís Cerdeira, cara da marca Soalheiro, mas que na altura abraçava outro projeto, lhe desvendada alguns segredos do mundo do vinho. E o vinho tanto é possível nos lugares menos elevados e com bom clima como plantá-lo nos lugares mais inóspitos, como nas montanhas vulcânicas da Ilha do Pico ou na região de Salta, na Argentina, a 3100m de altitude, explica ainda Vítor Paulo Pereira.
Faltava só encontrar os parceiros ideais que partilhassem do mesmo sonho, teimosia e loucura. E foi neste contexto que entram no projecto Hélder Pedreira e Wilson Braga, dois jovens destemidos e empreendedores que, durante a pandemia, decidiram desafiar o senso comum. Plantaram o primeiro hectare e meio de vinha contínua em 2020, seguido de mais um hectare e meio em 2022. “Chamaram-nos de malucos” revelaram agora ambos em entrevista a uma estação de televisão. “Mas os normais também não deixam herança ao mundo”, ironiza Vítor Paulo Pereira, com um largo sorriso de felicidade.
Hoje, a vinha está em plena produção e representa o primeiro passode uma nova paisagem agrícola no concelho, com novas plantações a caminho. Graças à ousadia deste grupo de amigos, onde se inclui o patriarca José António Pedreira, foi possível o Impossível. Nós ou courenses estamos muito orgulhosos porque mais uma vez mostramos que é possível contrariar o fatalismo da terra e a ladainha do impossível.
Impossível: eis pois a marca do vinho de Paredes de Coura, espumante de vinho verde, uvas courenses Loureiro e Alvarinho, que já a todos nos orgulha.
Manuel Tinoco











