Shopping cart

Subtotal $0.00

View cartCheckout

Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Opinião

O refúgio que nos resta

24/06/20254 Minutos de Leitura
359

Existem palavras que nos acompanham em silêncio, até que nos seja exigido pelo mundo dar-lhes forma, sentido e força. Uma delas é “refúgio”.

A definição desta palavra, para mim, é completamente aliada ao conforto, à segurança e ao sentimento de pertença. Pensei neste tema, pois é essa a palavra que associo a casa, a Coura, o cantinho onde me reencontro sempre que preciso de respirar fora de Lisboa. Refugiar-me é isso, regressar a um lugar onde o tempo abranda, onde me sinto inteira, segura, amada. Sempre que digo “vou refugiar-me”, há verdade nessa frase, uma verdade emocional.

Também decidi falar sobre isto pois, nos últimos anos, e mais ainda nos últimos dias, essa palavra ecoa com uma dor nova. O mundo parece ter desaprendido o que é paz. Ucrânia. Gaza. Sudão. Síria. Afeganistão. Israel. Irão. As frentes de conflito multiplicam-se, como se a guerra fosse uma constante e não uma tragédia. E em todas elas, “refúgio” já não é uma escolha. É uma urgência. O refúgio já não é um lar. É um espaço emocional, muitas vezes improvisado, onde as pessoas tentam proteger o pouco que ainda têm: a vida.

O refúgio passou a ser um buraco improvisado, uma cave apertada e até um túnel escavado à pressa. Foi no silêncio ensurdecedor da guerra que lugares que nunca foram pensados para acolher vidas, apenas para tentar salvá-las tornaram-se refúgios.

Na frente mais recente, entre Israel e o Irão, o medo voltou a crescer. As tensões crescem, os bombardeamentos alastram-se e os civis pagam o preço. As famílias tentam esconder- se onde podem. Mães que abraçam os filhos como se os braços fossem escudos. Vizinhos que dividem um pedaço de pão ou uma palavra de conforto, como se isso bastasse para manter a esperança viva. Ali, o refúgio não é confortável, é corajoso.

São nesses pedaços de mundo onde os céus carregam mais medo do que nuvens, que a vida inocente é o que mais está a ser posto em causa. Mas que sentido tem o inocente pagar por uma decisão que não lhe compete a ele tomar?

A crise humanitária agudiza-se onde reside a guerra, morrer já não é um pesadelo mas sim, para muitos, o peso da libertação. Vemos o sentido da vida a mudar, com a partida forçada de quem mais amamos.

É fácil falar de guerra quando estamos longe. Mas basta olharmos para uma fotografia, ouvir o relato de uma criança que já sabe o que fazer quando a sirene toca, para percebermos que o refúgio também é mental e emocional. É uma tentativa aflita de poder respirar de alívio por ter a noção do que fazer, o encontrar da normalidade no desespero.

O refúgio, nestes tempos, é onde se continua a amar, a cuidar, a esperar. É onde as pessoas ainda contam histórias, rezam em silêncio, trocam olhares que dizem: “ainda estamos aqui” e “não estás sozinho”.

Mesmo à distância, há formas de ajudar. Podemos apoiar organizações humanitárias que operam no terreno como a Cruz Vermelha, a UNICEF ou os Médicos Sem Fronteiras que continuam a fornecer água, cuidados médicos e alimentos a zonas onde quase tudo já falhou. E podemos informar-nos com espírito crítico, dando voz às histórias humanas que vivem e viveram estes pesadelos de perto.

Acima de tudo, podemos recusar a indiferença. Porque cada gesto conta: cada partilha, cada palavra, cada vez que dizemos “isto não pode ser normal”. A paz não nasce de grandes decisões, mas constrói-se com memória, empatia e acção. É essencial manter viva a ideia de que o refúgio, seja ele físico ou emocional, é um direito e nunca devia ser uma excepção.

Sandra Fernandes

Notícias relacionadas