Todos os verões, caros leitores, como se de um ritual cruel se tratasse, Portugal arde. Do Norte ao Centro de Portugal, os relatos não são apaziguadores, do Parque Nacional Peneda-Gerês, de Arouca e Penamacor, as notícias são alarmantes. O dia 29 de Julho foi, a esta data, o mais crítico do ano. Esperemos caro leitor, que não ocorram, este ano, outros dias semelhantes ou piores. As condições meteorológicas foram extremas, com ondas de calor recorde em Junho e Julho, temperaturas históricas e humidade muito baixa. Condições favoráveis para a ocorrência de incêndios de elevada agressividade, mesmo que o número de ignições seja reduzido. Sobretudo, caro leitor, se existir combustível, aquilo que alimenta o fogo, e o problema não são os matos grossos e vivos, mas sim os combustíveis finos e mortos ou secos.
A imagem do país coberto por fumo, e visível no espaço, é, infelizmente, quase tão típica quanto uma sardinhada em Junho. Mas enquanto as chamas lavram, caro leitor, o que realmente sabemos sobre o fogo que nos consome?
A gestão dos incêndios rurais bem como o comportamento do fogo, são temas que têm vindo a ser estudados com muito afinco pela academia e por organismos especializados. Eu própria estou a formar-me nessa área.
E o comportamento do fogo durante um incêndio rural é o que verdadeiramente irá ditar o desfecho do mesmo. Este, obviamente, dependerá de múltiplos factores que poderão intensificar ou abrandar o evento. É imprescindível procurar compreender como o fogo se propaga, que combustíveis naturais o alimentam, qual o papel da meteorologia e como a topografia influencia os fogos. Estuda-se o vento, a humidade, o tipo e a densidade vegetal, e até o ângulo de inclinação dos terrenos. Mas não menos importante nessa dança, é nunca desprezar nem o tempo, nem o comportamento dinâmico que o fogo apresenta em função desse mesmo tempo. A expressão – olhar e estudar o passado para descrever o futuro, também se aplica aqui. Antecipar o comportamento do fogo ajudará no momento do combate, tendo, como é óbvio, em consideração, a meteorologia, a topografia e o tipo de combustível presente.
Mas se há ciência, caro leitor, por que continuamos a parecer tão desprevenidos? As causas dos incêndios em Portugal são múltiplas. Algumas naturais, como os relâmpagos, mas a grande maioria é humana, sendo a negligência uma delas (incluindo aqui o abandono das terras), o fogo posto, e a má gestão florestal. Outra prática que poderá potenciar a ignição é o aumento de utilização de drones, sobretudo por inexperientes, que deixam de ter controlo sobre eles provocando a sua queda em locais mais sensíveis. A mim, o que mais me preocupa, caro leitor, é o abandono do mundo rural. A falta de interesse pela terra, pela agropecuária, pela floresta, que a população mais jovem tem revelado. Em contrapartida, ainda existe o valor ou amor que os mais velhos têm por esse bem, ao ponto de preferir emprestá-los sem contrapartidas financeiras, aos agricultores activos, para que estes se mantenham limpos e produtivos, contribuindo assim para a manutenção de um mosaico paisagista mais saudável. As
monoculturas, que ardem com facilidade, a falta de gestão da propriedade florestal também são outros factores bem presente. E, no entanto, ano após ano, ouvimos as mesmas explicações vagas e raramente se entra a fundo nos porquês.
Talvez o que mais arda, caro leitor, além da floresta, seja o silêncio. A falta de informação clara, científica e acessível, deixa o cidadão comum a navegar no nevoeiro do desconhecimento, levando o a opinar ou a agir de forma errada.
Porque é que um fogo se reacendeu após ter sido “dominado”? Porque é que não se investe mais em prevenção? Porque é que continuamos a ver pinheiros e eucaliptos lado a lado com casas? Poucos sabem responder, e os que sabem, muitas vezes não falam, ou não são ouvidos.
Precisamos de um novo pacto com a nossa paisagem. Precisamos de ciência aplicada e compreendida. De educação ambiental verdadeira e multiplicadora. Mas acima de tudo, caro leitor, é essencial quebrar o ciclo de indiferença e desinformação que, ano após ano, deixa o país vulnerável às chamas.
O mês de Julho de 2025 ficará na memória como um mês em que o fogo desenhou contornos dramáticos no território português. Sobretudo no nosso Alto Minho, caro leitor. Embora as estatísticas até 31 de Julho apontassem para um ano relativamente controlado, a última semana revelou a fragilidade de sistemas de protecção, e de quem os opera. O futuro impõe uma mudança de paradigma, de uma política de supressão para uma de adaptação e gestão sustentável. E, caros courenses, como é, e bem, praticada no nosso concelho, por quem decide sobre estas questões, o Município, a Protecção Civil, os técnicos, as entidades e comissões sectoriais, porque têm tido essa legítima e verdadeira preocupação.
E claro, caro leitor, não poderia acabar este desabafo, sem congratular e agradecer os esforços, dos nossos corajosos bombeiros, uns verdadeiros heróis. Não esquecendo também aqueles que auxiliam nesta área, os sapadores florestais e os agentes do SEPNA ou outras forças de segurança que são chamadas a actuar.
Helena Ramos










