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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

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Quando a alma não é pequena, o sonho acontece

16/12/20254 Minutos de Leitura
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E foi exactamente isso que aconteceu para os lados de Cossourado, freguesia bem conhecida do nosso concelho. Quem nunca foi às festas de São Bento? Ou cumpriu uma promessa levando a tradicional meia dúzia de cravos?

Pois bem, caro leitor, se fizer agora esse caminho da vila até lá, quase a chegar ao destino poderá observar, apesar de já instalada há mais de três anos, uma nova e diferente peça no mosaico daquela paisagem. Uma paisagem que já era bonita, mas que agora ganhou mais cor, mais riqueza e, sobretudo, mais propósito.

Fazer vinho em Paredes de Coura nunca teve ambição comercial. A tradição, aliada às condições edafo-climáticas, assim o ditaram. Ainda assim, sempre se fez vinho por cá: vinho para consumo próprio, em pequenas quantidades, e com o orgulho de quem cria para si e para os seus. Houve, é certo, quintas que se destacaram pelo vinho de qualidade, mais tinto que branco, mas, no mundo agrícola do concelho, falava-se muito mais do bom café. Talvez pela qualidade das nossas águas, talvez porque era, muitas vezes, aquilo que os agricultores tinham para oferecer e porque guardavam o vinho que compravam para eles. Ouvi repetidas vezes, nos concelhos vizinhos onde trabalhei, que Coura não era terra de vinho… mas que tinha um café memorável.

Outra história curiosa, daquelas que o tempo não conseguiu apagar, ocorreu durante muitos anos pelas bocas e pelos caminhos do Alto Minho: dizia-se que, em Coura, se bebia o melhor vinho da região. E perguntará o caro leitor, porquê? A razão era simples e bela na sua lógica. Como a terra não dava vinho em abundância, os courenses iam buscá-lo às vinhas dos concelhos vizinhos. E esses, que viviam da venda e do saber antigo da vinha, guardavam para vender o que tinham de melhor, ficando para si com o que sobrava. Assim, enquanto uns produziam, Coura escolhia. E, escolhendo sempre o melhor, acabou por beber o melhor vinho do Alto Minho,não por vaidade, mas por necessidade transformada em virtude.

Mas voltemos ao sonho que me trouxe a escrever estas palavras. Voltemos à nova paisagem que se desenha por aquelas terras e onde se entrevê uma vinha pouco comum neste território de montanha. Surge agora uma vinha contínua, plantada segundo as regras obrigatórias para produzir uvas com denominação de origem, tecnicamente falando, para dar origem a um vinho de qualidade produzido numa região demarcada, como antigamente se dizia. De casta Loureiro na sua maioria, com algum Alvarinho a compor o encepamento, dois jovens cunhados puseram mãos e vontade à obra: passaram da ideia ao papel, e do papel ao campo.

Num concelho onde a viticultura intensiva praticamente não existe, apesar de já haver outro pequeno projectocontínuo em Linhares, também ele fruto da visão de um jovem empreendedor com características dirigidas para o trabalho animal, esta exploração vitícola, com a dimensão que já apresenta, é mais do que um feito louvável. É, acima de tudo, um acto de coragem. Estes jovens procuraram aconselhamento, beberam conhecimento noutras explorações dos concelhos vizinhos e não se deixaram abalar pelos obstáculos que surgiam. Com as pedras do caminho não construíram um castelo, mas ergueram os alicerces de uma vinha bela e produtiva, digna desta região de Denominação de Origem Controlada, berço dos Vinhos Verdes. E, num concelho que não é tradicionalmente vitícola, esta vinha já se coloca entre as grandes explorações dos concelhos vizinhos.

Dois jovens e uma família unida, movidos pelo trabalho e pela persistência, criaram assim não o primeiro vinhedo do concelho, mas a primeira vinha com dimensão e características capazes de colocar Paredes de Coura, quem sabe, na rota dos Vinhos Verdes.

E porque a alma dos courenses não é pequena, este sonho encontrou outro sonho, de alguém bem querido neste concelho. Dessa união nasceu o primeiro espumante produzido com uvas courenses: um produto da nossa terra, borbulhante, com acidez equilibrada e feito da vontade firme de quem acredita. Com a ajuda de dois enólogos com provas dadas, surgiu o “Impossível”: um espumante courense que já tive o privilégio de provar, e que recomendo vivamente.

Helena Ramos

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