Caro Dr. Narciso:
Ficaria muito mal da minha parte escrever-lhe apenas por ocasião das eleições autárquicas, sobretudo para comentar os resultados no seu concelho de Paredes de Coura. Ainda assim, importa registar que o Partido Socialista voltou a ser o grande vencedor, tanto nas assembleias de freguesia como na assembleia municipal e na câmara, obtendo percentagens muito significativas e reveladoras de uma clara supremacia, seja pela qualidade das pessoas, seja pelos projetos de desenvolvimento apresentados.
O presidente do município é agora o Dr. Tiago Cunha, um jovem político de grande futuro, nascido e residente em Coura, e que encara com otimismo o futuro, sempre dependente das opções dos eleitores.
O concelho está, assim, em boas mãos, embora a verborreia política continue a marcar o discurso da oposição, insistindo em afirmar que os courenses fazem más escolhas e que, no seu entendimento minoritário, tudo fariam de modo radicalmente diferente.
Gostaria igualmente de lhe pedir um esclarecimento acerca da biografia de Miguel Dantas que ficou de escrever e que menciona, aliás, em duas passagens da sua renomada monografia: “Oportunamente darei a sua biografia e registarei a sua obra inigualável” e “Conto publicar, em opúsculo, a sua biografia e fazer o relato da sua obra meritória neste concelho.”
Afinal, chegou a escrevê-la em algum momento? Terá deixado algum manuscrito?
Do que conheço da sua biblioteca pessoal, não existe qualquer opúsculo dedicado a Miguel Dantas, devido, na minha singela análise, à sua intensa dedicação ao regime republicano, primeiro como deputado e depois como senador, ou por causa da sua morte prematura.
É certo que falou dessa intenção de escrever a biografia com o seu grande amigo Júlio de Lemos, pois ambos tiveram grande admiração por essa proeminente figura courense.
Talvez, por isso, o Dr. Narciso nunca tenha iniciado a desejada biografia, nem deixado esboço que permitisse a outros completá-la mais tarde. Aliás, se tal obra existisse, dificilmente Júlio de Lemos teria publicado, em 1949, “Biografia de Miguel Dantas Gonçalves”, no seguimentoda conferência que proferira nove anos antes, em Viana do Castelo.
E se me permite, face ao que escreveu, à relação que teve com Miguel Dantas, e também à amizade que dedicou a Júlio de Lemos, haverá algo mais que se possa saber sobre essa tal prometida biografia?
José Augusto Pacheco










