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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Opinião

Quotidianos

13/05/20253 Minutos de Leitura
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Em 2020, em tempos de pandemia de Covid-19, o escritor norte-americano Don DeLillo publicou “O Silêncio”, romance que versa sobre um encontro de amigos para assistirem a um jogo transmitido pela televisão, no célebre domingo da “Super-Bowl.” Mas, de repente, há um apagão tecnológico. O silêncio instalou-se, lançando as personagens numa situação assustadora, já que tinham ficado despojados do seu dia a dia tecnológico, ou seja, sem energia elétrica, sem televisão, sem Internet, sem rede de telemóvel.

E muitos dias passaram nesse persistente e inquietante silêncio, permitindo que à tona da água viessem as ansiedades, as lembranças e os receios surgidos com a nova incerta realidade.

O romance, que se lê como a serenidade de uma lição, explora a omnipresença da tecnologia na vida das pessoas, habitantes de um mundo conectado e ao mesmo tempo frágil e inseguro, como a falta de energia passou a evidenciar.

É o tal mundo digital no qual estamos mergulhados, sem tempo para nos apercebermos dos perigos que corremos e, ainda, sem tempo para evitar o modo como somos manipulados e explorados, pois facilmente nos converteram num produto de mercado. Estamos, assim, perigosamente dependentes da tecnologia digital. E se essa muleta nos for retirada, cairemos em estados de alma, que brilhantemente o escritor descreve no seu romance.

E, de facto, ficamos sem essa muleta, durante uma dezena de horas, no dia 28 de abril de 2025, com o apagão ibérico.

Conhecemos o silêncio de não termos luz, Internet, rede de telemóvel e televisão (acrescido nos meios urbanos pela falta de água)!

Manteve-se, contudo, a voz da rádio – para aqueles que recorreram ao carro ou aos transístores de pilhas –, apresentando dados vagos face à ausência de uma informação que pudesse tranquilizar as pessoas.

Vivi essa longa tarde, que se iniciou às 11h e 23 min, com muita tranquilidade, por mais intrigante que fosse. Se estivesse em Coura, julgo que teria sido mais tranquila, pois, em Braga, a água também falhou, como em todas as regiões urbanas.

A reunião política que tinha, nesse fim de tarde, em Monção, autodesmarcou-se, e desse modo fiquei mais livre para falar com minha irmã e para atender às solicitudes familiares. No final da tarde, cumpri a inesperada tarefa de encher todas as garrafas de plástico que em casa tinha, numa fonte pública de Gualtar, e no início de uma noite clara, calma e silenciosa (o céu ficara sem vestígios de aviões de viagens mais longas ou daqueles que já passam em modo de descida em direção ao aeroporto situado em Pedras Rubras), houve um generalizado e desejado bruar de satisfação: a luz regressara! O pesadelo da ausência acabava ali mesmo, mas o da viciação tecnológica começara. De um momento para o outro, o silêncio passou a existir, e o nosso mundo digital desmoronou-se como castelo de areia, deixando-nos em palpos de aranha.
E se acontecesse por dias, semanas ou por mais tempo?

José Augusto Pacheco

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