De Mário Cláudio, acabo de ler “Cruzeiros de Inverno”, publicado em junho de 2025, e considerado, pela Revista Ler (nº 174), “um dos seus melhores livros”, dentro do qual o Alto Minho profundo marca presença de forma indelével, “tal e qual como a paisagem de bouças e prados, sinuosos caminhos, e ribeiras saltadoras, ora cantantes, ora rumorosas.”
Na última trilogia narrativa, o escritor courense – sim, sem dúvida alguma, tanto pela sua sensibilidade de pertença, como pelo seu envolvimento na comunidade –, declarando-se um obstinado curioso dos mitos helénicos, invoca “a vetusta Hécate, deusa das encruzilhadas, da magia, e das pragas”, ou seja, a feiticeira que preside às encruzilhadas que são lugares de eleição de magia, de acordo com o dicionário de mitologia grega.
Trata-se da deusa triforme, segundo a descrição de Ovídio, em “Metamorfoses”, com as suas três cabeças, conhecedora dos intentos humanos e habilitadas, como o uivar dos cães auspiciavam, no uso de fórmulas mágicas, de feitiços, e de ervas de má fama.
Talvez, por isso, Hécate seja a deusa dos antigos altares, tendo-lhe sucedido, na mitologia romana, a deusa Trívia, também ela dominando encruzilhadas de caminhos, magia, feitiçaria, e fantasmas tenebrosos que daí podem advir, comprovando desse modo que tudo o que diz respeito à bruxaria acompanha o ser humano desde os seus primórdios.
Ainda no mês de agosto, percorri estradas do parque natural das “Batuecas”, de frondosos carvalhais, para visitar algumas aldeias históricas medievais, que me maravilharam sobretudo pelos testemunhos vivos que se observam, não deixando de destacar La Alberca, simplesmente deslumbrante.
Numa outra aldeia, bastante conhecida pelos retratos, a preto e branco, de habitantes que por ali viveram, deparei-me numa entrada ou saída do povoado com um «humilladero.» Estranhando a palavra, é certo, nela encontrei um outro encanto, ou um desafio de busca de sentidos e significados, nessa mistura incessante de presente e passado.
Na Galiza, chamam-lhe cruzeiro, abundando ao longo do caminho de Santiago, mas na região de Castela e Leão, junto ao cruzeiro, há um local de reza, que no sentido bíblico traduz uma atitude de humildade, pois o caminhante deve reconhecer os perigos vários que pode enfrentar, bem como a imprevisibilidade daquilo que pode acontecer. Que os deuses fiquem em paz, acrescentando-se também tudo o que na mitologia greco-romana derivava dos seus mágicos poderes, é algo que o «humilladero» traduzirá como espaço de respeito, veneração e devoção.
Compreende-se assim que muitos dos rituais católicos provenham de tradições ancestrais, associadas ou não à mitologia, e que o cruzeiro incorpora a presença de imagens que transportam, no tempo de vivência dos sucessivos povos, imaginários quase inalterados. E é nas encruzilhadas de caminhos que muitas desses cultos estão presentes, habitados de medos muitos e de fantasias impensáveis.
José Augusto Pacheco










