O próximo filme de Steven Spielberg será sempre extraordinário, tal é a sua mestria como realizador e criador de mundos admiráveis, incluindo o da sua própria infância, autobiografada em “Os Fabelmans”, lançado em 2022. O seu nome há muito revolucionou a cinematografia, e não é necessário percorrer a vastidão da produção nas últimas décadas para o reconhecer.
O filme de que aqui se fala é “O Dia da Revelação”, recentemente chegado às salas. De acordo com a sinopse, «um especialista em cibersegurança torna-se delator e decide revelar ao mundo inteiro, contra forças muito poderosas, que extraterrestres existem». Tal existência Spielberg já havia abordado em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre.”
Na era da inteligência artificial, em que a mineração de dados gera poderes inéditos e as ferramentas criadas pelos humanos tendem a superar a inteligência que as concebeu, a questão sobre a exclusividade do ser humano torna-se inevitável.
No Génesis, livro bíblico da origem da humanidade, a passagem da criação («Façamos o ser humano, conforme a nossa imagem e conforme a ‘nossa’ semelhança») revela-se na Terra. Mas também no universo?
A natureza cósmica da vida, distinguível, grosso modo, entre humana e extraterrestre, tem sido analisada em profundidade pela perspetiva da crença e da ciência. O que Spielberg faz é dar forma cinematográfica a essa discussão, recriando a existência de outros seres, o que poderia pôr em causa o modo como nos governamos neste quintal minúsculo que é o planeta Terra.
Existimos, é um facto. E sozinhos?
É a pergunta de muitas gerações, e o realizador ilumina-a com o seu talento inconfundível, tornando plausível o que parece perplexo. Que consequências teria, afinal, a confirmação da vida extraterrestre?
No filme, a tensão entre o segredo de Estado e o direito à verdade é precisamente o campo de batalha que gera cenas atraentes e ao mesmo tempo aterradoras. Se o segredo é, efetivamente, revelado a sua gestão pode tornar-se complexa, nomeadamente na vertente religiosa e da organização social, sem ignorar a dimensão pessoal.
A dificuldade seria de uma grandeza inimaginável, pois o ser humano perderia a sua singularidade planetária, a sua voz dominante, o seu reino de papel e o sonho de ser o único habitante consciente do universo.
Sintomaticamente, a freira que no filme apoia a revelação encarna a mentalidade de um universo plural, capaz de contrariar a verdade absoluta secularmente defendida.
Possivelmente, a ficção científica de Spielberg não é assim tão ficção.
José Augusto Pacheco










