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Publicação quinzenal dedicada à informação local de Paredes de Coura. Aqui encontra notícias, reportagens, entrevistas e agenda cultural do concelho. Um espaço de proximidade que dá voz à comunidade courense.

Destaques

José Queirós, o antigo carteiro de Formariz recua no tempo.

09/03/20266 Minutos de Leitura
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Retomando a viagem na procura de courenses com história, na certeza que todos nós temos uma história de vida, nesta edição fomos até ao Lugar da Pereirada, freguesia de Formariz.

José Feitosa Queirós, 83 anos, é um homem sobejamente conhecido por todo o concelho. Carteiro de profissão, com uma carreira profissional de 32 anos, tem um longo percurso de vida e muitas histórias de tempos difíceis, onde o carteiro tocava sempre duas vezes.

Nascido no longínquo ano de 1942, na freguesia de Formariz, por ali frequentou a escola primária, onde concluiu a 3ª classe. Mais tarde, já a cumprir o serviço militar, obteve o diploma da 4ª classe, canudo que se viria a revelar importante na vida activa.

Depois de concluída a instrução primária e até ingressar no serviço militar, trabalhou na agricultura. Ingressou no serviço militar em Braga, onde efectuou a recruta, transferindo-se depois para Espinho, onde tirou a especialidade de artilharia anti-aérea. Em tempos de guerra colonial, Angola foi o destino seguinte. Viagem longa e penosa no barco Vera Cruz. Por lá ficou até 13 de Outubro de 1966.

Concluído o serviço militar, regressou ao continente. Conseguiu trabalho na cidade do Porto, no cinema Batalha. Com sessões de cinema apenas num dia de semana, mais aos sábados e domingos, ajudava também no colégio João de Deus, onde lavava loiça e colocava os talheres nas mesas para as refeições dos mais de 300 alunos. No colégio, dirigido por 2 padres, não auferia qualquer salário, tendo apenas direito às refeições.

Entretanto, nas salas do cinema não se sentia muito bem, derivado às salas de fumo, e o ordenado não era nada de significante. Num dos dias de sessão de cinema, ouviu numa conversa entre dois frequentadores, que estavam abertas inscrições para carteiros dos CTT, sendo necessária a escolaridade obrigatória, na época a 4ª classe.

Perante o que ouviu, no dia seguinte dirigiu-se à estação dos correios da Batalha, para pedir mais informações. Foi então que efectuou a inscrição, deixando uma carta com preferências apenas para a cidade do Porto, Paredes de Coura ou arredores do Porto. 

Volvidos 2 dias recebeu uma carta a comunicar para se inscrever na estação dos correios, em São Mamede de Infesta. Em 20 de Fevereiro de 1967 iniciava, dessa forma, uma longa carreira profissional, depois de duas semanas de estágio. Iniciou funções auferindo o vencimento mensal, como carteiro assalariado, de mil cento e noventa e dois escudos, o equivalente a pouco mais de 5 euros nos dias de hoje.

Depois de 8 anos ao serviço nos correios de São Mamede de Infesta, transferiu-se para a terra natal, Paredes de Coura, onde iniciou funções na estação dos correios, em Abril de 1975.

Quando chegou a Paredes de Coura eram 7 os carteiros no activo. Foi-lhe então atribuído o giro que se iniciava em Formariz, com continuidade por Infesta, Rubiães e Linhares. Era um giro diário, efectuado a pé, num percurso aproximado de 24 Km. Entre 1975 e 1984 os giros eram efectuados, obrigatoriamente, a pé. Não era autorizado qualquer meio de transporte. Em 1984 acabaram com os postos do correio que existiam pelas freguesias, normalmente nas mercearias, iniciando-se os giros motorizados.

Recorda ainda que, entre 1967, data de ingresso, até 1974, ano da revolução de Abril, os carteiros tinham um horário laboral de 52 horas semanais, com trabalho ao sábado e domingos de manhã.

Acrescenta ainda que, no giro que efectuava, numa extensão de 24 Km, apenas existiam 14 telefones para efectuar a cobrança. Por outro lado, era o carteiro que procedia ao pagamento, em dinheiro vivo, das pensões daspessoas das freguesias. 

Sem ruas, como nos dias de hoje, e muito menos, sem números de porta, os carteiros identificavam apenas as pessoas pelos lugares das freguesias, no entanto, a existência de muitos nomes iguais, ou muito semelhantes, levava algumas vezes, a trocas de correspondência. Para se ter uma ideia, num lugar da freguesia de Infesta existiam, na altura, sete homens de noma Joaquim, logo era fácil haver troca de correspondência. Ao longo da carreira sempre procurou entregar a correspondência directamente às pessoas, nunca tendo feito entregas por interposta pessoa e. muito menos, deixar as cartas noloja da aldeia.

O Queirós sente-se orgulhoso pelo percurso de vida, acrescentando que nunca teve problemas de maior com a população, e quando existia algum mal-entendido, procurava sempre resolver as situações através do diálogo com as pessoas.

A propósito, uma altura, ao substituir um colega de férias, teve um pequeno acidente com a motorizada, no giro de Insalde, tendo fracturado uma perna, o que o levou a 3 meses de baixa médica. No regresso ao serviço e no giro habitual, uma senhora de Linhares, ao vê-lo de volta, gracejou: “ainda bem que teve o acidente, assim ficamos a saber as pessoas que estão de baixa por aqui”. Isto porque, elas aproveitando a inexperiência do carteiro substituto, olhavam todas as cartas que ele trazia da Segurança Social.

Reconhece que nos dias de hoje tudo é diferente e lamenta que, apesar das condições oferecidas aos carteiros de agora, o correio só chega às freguesias uma ou duas vezes por semana. 

Recorda ainda a central dos correios que existia na rua principal, onde chegava, manhã cedo, o camião que transportava todo o tipo de correspondência. Depois, eram os carteiros que efectuavam a distribuição por cada giro, antes de iniciarem a viagem pelas freguesias.

Depois de aposentado, há 27, desempenhou, durante duas décadas, as funções de sacristão, na paróquia de Formariz, cargo que deixou de exercer com a chegada da pandemia do Covid-19, em 2020.

Muito mais haveria para narrar na história de vida de um homem de luta, que continua a demonstrar excelente capacidade de diálogo e pensamento, porém, o espaço disponível não é muito para o relato dos factos mais importantes de um senhor carteiro da nossa praça.

Foi um prazer conversar com o José Queirós. 

Albano Sousa

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