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06/07/20263 Minutos de Leitura
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O próximo filme de Steven Spielberg será sempre extraordinário, tal é a sua mestria como realizador e criador de mundos admiráveis, incluindo o da sua própria infância, autobiografada em “Os Fabelmans”, lançado em 2022. O seu nome há muito revolucionou a cinematografia, e não é necessário percorrer a vastidão da produção nas últimas décadas para o reconhecer.

O filme de que aqui se fala é “O Dia da Revelação”, recentemente chegado às salas. De acordo com a sinopse, «um especialista em cibersegurança torna-se delator e decide revelar ao mundo inteiro, contra forças muito poderosas, que extraterrestres existem». Tal existência Spielberg já havia abordado em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre.”

Na era da inteligência artificial, em que a mineração de dados gera poderes inéditos e as ferramentas criadas pelos humanos tendem a superar a inteligência que as concebeu, a questão sobre a exclusividade do ser humano torna-se inevitável.

No Génesis, livro bíblico da origem da humanidade, a passagem da criação («Façamos o ser humano, conforme a nossa imagem e conforme a ‘nossa’ semelhança») revela-se na Terra. Mas também no universo?

A natureza cósmica da vida, distinguível, grosso modo, entre humana e extraterrestre, tem sido analisada em profundidade pela perspetiva da crença e da ciência. O que Spielberg faz é dar forma cinematográfica a essa discussão, recriando a existência de outros seres, o que poderia pôr em causa o modo como nos governamos neste quintal minúsculo que é o planeta Terra.

Existimos, é um facto. E sozinhos?

É a pergunta de muitas gerações, e o realizador ilumina-a com o seu talento inconfundível, tornando plausível o que parece perplexo. Que consequências teria, afinal, a confirmação da vida extraterrestre? 

No filme, a tensão entre o segredo de Estado e o direito à verdade é precisamente o campo de batalha que gera cenas atraentes e ao mesmo tempo aterradoras. Se o segredo é, efetivamente,  revelado a sua gestão pode tornar-se complexa, nomeadamente na vertente religiosa e da organização social, sem ignorar a dimensão pessoal.

 A dificuldade seria de uma grandeza inimaginável, pois o ser humano perderia a sua singularidade planetária, a sua voz dominante, o seu reino de papel e o sonho de ser o único habitante consciente do universo.

Sintomaticamente, a freira que no filme apoia a revelação encarna a mentalidade de um universo plural, capaz de contrariar a verdade absoluta secularmente defendida. 

Possivelmente, a ficção científica de Spielberg não é assim tão ficção.

José Augusto Pacheco

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